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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

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Vamos fazer de conta de que não foi com o Cristiano Ronaldo?

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Mais do que o caso em si, os comentários que vou lendo e ouvindo à alegada violação de Cristiano Ronaldo é o que mais me te consumido os nervos. Será que alguém leu a reportagem do Der Spiegel? Será que se não fosse Cristiano Ronaldo e se fosse o Zé Tó ou Trump, que os comentários seriam os mesmos? Cristiano Ronaldo é dos nossos, talvez o melhor dos nossos e parece que em muitos dos seus defensores há uma dona Dolores em potência! Não importa a idade ou genero, nem classe social ou instrução. As marcas do machismo estão aí!

 

Vamos começar pela parte em que o Der Spiegel expõe, e de uma forma bastante sustentada, recorrendo a provas e a indícios fortes, o que aconteceu em 2010. 

Cristiano Ronaldo e uma moça envolvem-se e a coisa termina muito mal, com ele (sempre alegadamente) a cometer uma violação anal. Sabemos que tudo isto é verdade, porque ela fez queixa à polícia e há indícios médicos que o provam. E há aqui que entender umas quantas coisas, válidas para este caso e para outro qualquer.

Mesmo que ela seja a mais puta das putas, a mais badalhoca das más pessoas e megeras oportunistas ressabiadas, nada, NADA justifica uma violação. Nem a torna impune.

"Ai e tal ela foi com ele, sabia ao que ia!" Oi? Sabia? Vamos imaginar que ela é a rainha das prostitutas badalhocas ou o amor da vida toda. É válido, neste e noutro caso, que a meia da penetração ela/ele diga não. Seja porque mudou de ideias, seja porque está a doer ou porque tem a panela ao lume. Se depois disso o o outro (ou outra) continua e força, significa violação. Abuso. E isso é crime. Um crime horrível.

 

E é aqui que o caso de CR sai fragilizado, pois os documentos apresentados pelo Der Spiegel demonstram que ele terá dito que ela disse não e para parar.

 

Quanto ao acordo, primeiro há que entender que os acordos extrajudiciais são bastante comuns nos EUA. A ideia é permitir que o nome das vítimas seja mantido em segredo e evitar, assim, o estigma. 

Além disso, como as leis para crimes sexuais ainda deixam muito a desejar, muitos advogados de defesa optam por este caminho como forma de assegurar alguma justiça - mesmo que seja apenas financeira. Sim, financeira. Receber dinheiro. Pasta. Cacau. Não sei se andam distraídos, mas em muitos crimes, também em Portugal, é comum existir a compensação monetária. Seja pelos danos feitos ao carro, seja quando morre um filhos por negligência médica.

E juntem a isso, o poupar a vítima a uma tremenda exposição e a um julgamento sem fim. Imaginem-se, só por três segundos, ser violados e depois sentados em tribunal a contar a para todos a história que tanto querem esquecer. Pior ainda, imaginem que o vosso abusador é um homem que ultrapassa o conhecido, é idolatrado. Acham que tinham coragem de passar por tudo isso? De dizer quem ele é?

 

O Der Spiegel refere esta parte, mostrando que durante todo o processo a vítima foi sempre aconselhada a não avançar, por ser ele quem era. Também por isso, ela nunca quis dar o nome do agressor, nem quando fez a primeira queixa - razão pela qual na altura a polícia não pode dar seguimento à investigação. E esta parte não é um detalhe, pois os próprios advogados de Cristiano Ronaldo deixaram bem claro no acordo, que nem ao terapeuta, ela poderia indicar quem era o agressor. E ela não falou.

 

O caso veio agora à tona com a investigação do Der Spiegel, que já no ano passado fez desta história notícia, mas claro ninguém acreditou. Ainda mais, porque não havia vítima. Não havia um nome - sim, ela recusou-se a falar.

 

  • "Porquê falar agora?"

Eu acredito que há várias razões. A primeira foi ver que o Der Spiegel não ia desistir facilmente - inclusive, apareceu uma jornalista à porta de casa dela. Depois, porque (por fim!) esta mulher obteve ajuda legal competente, que tem revelado as várias falhas do acordo feito em 2010, inclusive o desprezo que a defesa nutriu por ela, enquanto vítima. E também porque, acredito eu, sente uma necessidade de contar a sua história, fazer ouvir a sua voz. O ambiente é também favorável, afinal o #metoo veio dar voz a muitas vítimas, homens e mulheres, de abuso que anos depois, conseguem agora libertar-se e dar os seus testemunhos.

E se estão atentos, ela deu uma entrevista e desapareceu. 

 

Novamente, não me compete a mim julgar, nem a ninguém, mas pensem. O que tenho lido e ouvido, o preconceito e o machismo, dão medo. Muito medo! E volto à questão acima, será que se não fosse o protagonista da história Cristiano Ronaldo, seriam estas as reacções?

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