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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

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O Socras, a Sic e o confronto

17.04.18

socrates-sic.png

 

Para inicio de conversa, acho que o Socrates é culpado, culpadinho! Esperem, não vá este blog (de enorme difusão e popularidade nacional) ser acusado de difamação ao senhor: acho que o Sócrates é alegadamente culpado, culpadinho! 

Culpado, culpadinho de novo-riquismo, de parolice e uma certa gabarolice azeiteira, com tendência para o egocentrismo e totalitarismo! E fortemente alegadamente culpado de corrupção e por aí andado! A minha opinião pouca ou nada importa! Não sou jornalista, não tenho de ser imparcial, nem de informar. Muito menos trabalho na Justiça, nem como investigadora criminal! Ou seja, sou uma mera pessoa a opinar. Conversa de café!

 

Ainda assim, não simpatizando com a pessoa e achando-a alegadamente culpada, há coisas que me moem neste caso do Socras, sobretudo o tempo! O tempo senhores, o tempo que a coisa está a demorar! O homem foi preso preventivamente, senhores! E pior: a eterna sensação que vai acabar com a montanha a parir ratos - mudem lá as leis, oh faxfabor!

Obviamente que sendo o Socras doí menos, mas pensar que podia ser algo assim comigo ou com alguém verdadeiramente inocente, moí. Adiante!

 

Também por isso, mói muito a suposta Grande Reportagem da SIC, o "Confronto", que de reportagem tem pouco - ou colar trechos de vídeo e adicionar legendas é agora um trabalho de jornalismo?! E o contexto? E o contraditório?

Não há ali novidade nenhuma, nada que não se saiba, nada de novo!

A questão é como? Como é que aquelas imagens chegam à TV?

E como é que a SIC as expõe, assim a bruto? E não, não me venham cá o mimi da liberdade de expressão, nem de informação. Do ponto de vista deontológico, aquela reportagem é altamente reprovável!

Obviamente que a Sic não tem de revelar as suas fontes (não me espantaria se inclusive tivesse sido a defesa do Socras a "pedir para" colocar isto no ar! A sério, vejam!!), nem de explicar as suas intenções, mas a sério o que é que foi aquilo?

 

Eu também vi a Supernanny da Sic

16.01.18

Supernanny.png

 

Como não vivo em Portugal, ontem não senti o sismo; em compensação, graças às maravilhas da Internet, pude ver o Supernanny da Sic!

Obviamente que a coisa ia ser polémica e a Sic sabia-o. Ao mesmo tempo põe todos a falar e a discutir sobre educação - e isso é bom! Sobretudo quando parece ser tendência ver crianças tiranas, sem qualquer tipo de estrutura ou educação!

 

Entendo que para muitos pais, desesperados, esta seja quase a última esperança - e convenhamos ao segundo minuto de programa já eu estava cansada e a pensar que se calhar, o melhor mesmo, é não ter filhos! Infelizmente bons serviços de mediação familiar há poucos e, convenhamos, são caros!

 

Aqueles que acusam o programa de exposição de menores, muito justo, será que não faz sentido alargar o conceito para as novelas ou crianças que vão a programas de TV ganhar e perder coisas ou quando os usam para ilustrar a pobreza/a tristeza/o desespero/o que o valha da família?

Sim, são níveis diferentes de exposição, assim como são outros contextos, mas não é igualmente exposição? 

 

Mais do que a exploração/exposição da criancinha (que é pertinente), o que mais me preocupa é a inconsequência.

De que forma é que isto vai afectar as famílias e, sobretudo, os mais novos no futuro? Desde ir comprar pão e a ouvir alguém a opinar sobre um comportamento privado ou a cor do pijama; à adolescência e vida adulta, com aquelas imagens sempre ali, sempre online, sempre disponíveis!

 

Que consequências há no futuro? E a resposta é: eu não sei, nem tu sabes. Aliás, ninguém sabe. Cada puto é único e tudo isto (Internet) é uma novidade! Não há casos, nem estudos para medir o efeito ou o impacto que a TV, assim como as redes sociais e a consequente exposição mediática têm na vida de cada um - por isso, volto à carga: pessoas com filhos, cuidado com as redes sociais!

 

Voltando à Supernanny a coisa podia ter sido bem mais gritante, a Sic conseguiu manter ali um bom equilíbrio, na minha opinião. Aqueles sons e olhares para a câmara não faziam falta, mas enfim: a Sic não é a Santa Casa e, claramente, mais do que putos educados, quer audiências!

Ontem li muitas críticas à profissional. Pessoalmente, gostei: claramente tem experiência, é profissional, mas também empática. E quando defendeu a tese do “não se bate nas crianças”, ainda mais no país do “uma palmada bem dada, cura tudo”, ganhou logo a minha simpatia!  A senhora trabalha nisto há 25 anos e a ideia que ela não tem competência, porque não tem filhos… não me lixem! Ou agora um oncologista tem de ter um cancro para poder trabalhar?!

 

E vocês, o que é que acharam?

Ele bate-lhe? Dê-lhe mimo e amor!

03.06.16

violencia domestica.jpg

Dona Maria da Glória conta à dona Carla Duarte que é vítima de violência doméstica, há mais de 40 anos. E o que responde a xô-dona Carla?

  • "Ele não tem ninguém. Ele de si quer uma mãe, não quer uma mulher"

  • "seja paciente"

  • dê "amor", dê "mimo"

  • "Você escolheu este homem e independentemente de tudo, por enquanto é com ele que vai ficar"

  • "Quando damos amor, recebemos amor, mesmo que seja em menos quantidade. Quando damos violência, recebemos violência. Se recebe violência, corte este ciclo e não dê violência por muito difícil que isso seja. O problema dele é ele próprio."

Afinal "você conhece-o bem" e como disse a xô-dona Carla "assim não piora"!

E detalhe, onde é que isto aconteceu? Na Sic. E já agora, não que isso importe muito, mas quem é esta conselheira cheia de saber? Mais não é do que a taróloga da Sic. Eu que sou uma pessoa que apesar de bastante abertas às crenças alheias, não posso deixar de sentir comichões com estas consultas em directo e via telefone, que custam horrores de dinheiro a quem ligam e onde se dão conselhos e opiniões como quem brinca com a vida alheia.

 

Senhora dona Maria do Carmo: não dê a esse homem nem mais um dia da sua vida! Deixe-o, contacte a polícia e a APAV. Que ele não lhe encoste nem mais um dedo, nem lhe dirija nem mais uma palavra ofensiva. Ignore os astros e as parvoíces da Carla e siga as suas próprias convicçõe. A senhora merece mais e melhor também. Violência doméstica é CRIME PÚBLICO, lembre-se também que A CULPA NÃO É SUA!!

 

 

E Se fosse Consigo? Racismo em Portugal

21.04.16

 

Só ontem à noite é que vi a primeira reportagem do programa "E se fosse consigo?" da Sic, cujo tema era o racismo em Portugal. Adorei. Fazem tanta, mas tanta falta programas assim. Reportagens que nos obriguem a reflectir e que nos incitem a agir. É serviço público no seu mais puro sentido.

Sempre que o tema vinha à baila, com a família e amigos, eu sempre defendi "sim, em Portugal há racismo". OK, Portugal pode não ter casos extremos como os EUA, onde o número de negros assassinados pela polícia, supera (e muito) o dos brancos; da Itália, onde os próprios deputados brancos insultam deputados negros de "macacos" e outros adjectivos, etc., etc., etc. Mas façamos uma reflexão profunda.

Quantos de nós tivemos colegas negros na escola? Ou ciganos? Ou Indianos? Eu, assim de repente, conto um cigano apenas.

Desde 1974, quantos políticos negros?

Quantos presidentes, directores ou pessoas em carga de chefia?

Jornalistas? Apresentadores de TV?

Mesmo atores negros, aparecem apenas em telenovelas ou ficção histórica... a fazer de escravos, obviamente. E quando são histórias actuais, já se sabe que a "história" daquele personagem será a exposição ao racismo e, com sorte, a superação do racismo. Quando a minha mãe me disse que, por fim, ia haver uma telenovela com uma protagonista negra, acrescentou logo: "mas passa-se em Angola e vão falar de racismo". A sério? Não teremos todos nós amigos, vizinhos, colegas de trabalhos negros ou de outras raças e etnias? A ficção não devria ser mais... real?

Também na música sempre houve separação. Por isso, considero os Buraka Som Sistema tão, mas tão importantes em Portugal. Foi o começo de ver brancos e negros no mesmo espaço, a dançar a mesma música e a aceitação do kuduro e de algo "africano", como bom, com qualidade. Algo artístico.  Recordo-me tão bem de nos tempos da universidade ir a um bar/discoteca de música africana com amigos e não haver mais nenhum branco por lá metido, sem ser eu ou alguém do meu grupo de amigos.

O desporto talvez seja a área mais democrática. Afinal, olha-se mais ao talento, do que à cor da pele. Todavia, nem o desporto é indiferente à questão racial, como todos sabemos. Basta recordar episódios como insultos, bananas e, claro, as claques no seu melhor! Haver em Portugal, uma estátua ao Eusébio, não torna o país não racista.

Recordo-me que quando a actual Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, tomou posse, isso foi notícia. Na reportagem da SIC falavam disso e remetiam para ela uma declaração em que a ministra dizia que em Portugal, sim, havia racismo, mas estava institucionalizada a ideia de que não. É que em Portugal, continuamos a olhar para o lado, com preconceitos disfarçados de "Eu não sou racista/homofóbico/xenófobo/etc., pois até tenho um amigo que..., mas..." E o problema vem depois do "mas". Mas "na minha família não", mas "para evitar sofrimento, é melhor que os meus filhos não", mas "até compreendo quem...", mas "é preciso ver que Portugal...".

 

Pois, Portugal. Esse país que durante séculos enriqueceu graças ao comércio de pessoas escravas e que até aos anos 70 travava uma guerra colonial. Obviamente, que o tema "racismo" é irrelevante e que "nós", portugueses, nada temos que ver com isso. Por tudo isto, usar o argumento que "Portugal é um país de brancos", daí não vermos mais negros nas mais diversas áreas, é, desculpem, uma treta. Há sim, falta de oportunidade. Amigos meus diziam que nas entrevistas de trabalho era sempre a mesma história: por telefone tudo bem, chegada ao local... "é mesmo Português?" ou "Fala mesmo bem."

 

Quando vi a reportagem da SIC dei por mim, como todos, a pensar: "o que faria eu se escutasse aquelas palavras?". Se fosse há uns anos atrás, sei que iria responder, retaliar. Mas agora... não sei se é porque estou a ficar velha, acomodada e/ou sem paciência para gente burra, mas a verdade é que não sei mesmo se me meteria. Acho até que teria até visto aquilo como um assunto pessoal. O que é errado. Racismo é crime. Tal como a violência doméstica. Devemos todos intervir, chamar a polícia até.

No Brasil, onde o racismo é discutido de forma diária, esta criminalização (de vez em quando, pelo menos) é levada de forma bem séria. Recordo-me de uma historia de uma adepta que insultou o jogador da equipa adversário, com comentários racistas. Foi filmada e criminalizada. E, claro, no século XXI isso significa também redes sociais. O caso ganhou proporções mediáticas, com a adepta a chorar baba e ranho na TV pública, a pedir perdão e a usar o argumento como o "calor e a paixão futebolística" como argumento.

E é argumento? Não. Não é, nem pode ser. Não pode ser mesmo. E vamos ser honestos e conscientes. Quantas vezes dissemos "branco de merda?" ou "corre, branco" ou "vai-te foder, branco do caralho?". Alguma vez ouviram isto? Obviamente que o racismo é um pau de dois bicos, de muitos bicos. De certeza que há brancos que já sofreram racismo. No entanto, tendo em conta a dimensão histórica, social, cultural, económica, entre outras, sem dúvida, que ainda é contra as pessoas negras que ele mais se manifesta. Milhões de pessoas foram escravizadas e ainda no século XX, a segregação racial era mesmo "uma coisa". Ainda hoje é. Uma mãe com um filho negro, sabe que o seu filho tem mais problemas de ser perseguido, agredido e até assassinado pela polícia do que uma mãe de um filho branco. Imaginem, agora, ter que viver com essa angústia.

 

"E se fosse consigo" fez ainda o velho exercício, da boneca branca e da negra, fazendo perguntas a várias crianças sobre "qual a boneca bonita?" e "qual a boneca má?". Ouvir crianças negras a dizer que não gostam da própria cor e que se acham feias pela cor que têm, foi avassalador para mim. Claramente estamos a fazer muita coisa mal. Precisamos de mais bonecas de todas as cores, de mais cantoras de todas as cores, de mais atores de todas as cores, de mais publicidades de todas as cores... precisamos definitivamente de um mundo com muitas mais cores.