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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

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Estados de alma num safari

09.04.17

kruger africa do sul.png

 

Quando fui à África do Sul, na hora de planear a viagem, deixamos o Kruger para o fim. O Kruger é uma coisinha do tamanho da Bélgica, situado no nordeste do país. O parque é a maior reserva natural da África do Sul e aqui podem ser vistos vários bichos, entre eles os big five, designação dada aos grandes predadores: os leões, os rinocerontes, os búfalos, os elefantes e os leopardos. Dentro do parque existem vários tipos de hospedagem, pois é possível passar a noite lá, no meio da selva, cheios de bichosas à volta - sempre com regras, por exemplos, sem guias, os visitantes só podem andar no parque entre as 5h30 e as 18h00. Quanto custa? Existe alojamento para todos os bolsos, desde 20 euros por noite, a hotéis super exclusivos e luxuosos - e lamento, mas isso eu não sei quanto custa, que o meu orçamento não me permite.

 

Apesar de ser possível fazer safaris privados (há-os às 4h00, 12h00 e 18h00) - e valem a pena, na minha opinião. É tudo uma questão de sorte, porque os bichos não têm propriamente uma agenda e não obedecem  compromissos. Ainda assim, os safaris permitem ir a zonas e em horários, onde de forma natural não iríamos. No Kruger, o mais comum é um safari self-drive, onde cada um vai no seu carro e explora ao seu ritmo - sendo que há regras além do horários, como não passar ds 40 km, não sair do carro, etc. As pessoas estão por sua conta e risco e, sim, merda acontece.

 

No Kruger foi como ter 5 anos outra vez. Há uma excitação infantil, a roçar o histerismo, quando se vê um bicho, pela primeira vez. Depois há um deslumbramento, porque animais como um leão, um leopardo ou um elefante são mesmo muito especiais de ser ver. Vê-los em grupos, as dinâmicas, as crias, (tentativas de) caça, a comer, etc. E, sobretudo, vê-los ao longe, no seu habitat, sem bichos drogados ou mal-tratados ou acorrentados ou enjaulados. Como tem de ser. Bem, aqui ficam alguns estados de alma num safari 

 

A primeira vez que se vê um bicho qualquer

 

 

5 Dias de safari, uma banda sonora

 

A primeira vez que se vê um impala

 

 

A 837384768 vez que se vê um impala

 

 

Ooooooooooooh! Elefantes bebés!

 

 

Mais elefantes. Adoro elefantes!

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Umas hienas rondam uma zebra. D/vida moral: torcer pela zebra ou pelas hienas? Ver uma caçada era fixe! Coitadinha da zebra! Escapou-se, felizmente! Oh, nada de caça!

 

 

 

Leopardo à vista!

big five kruger.png

 

Vê-se mais bichos pela manhã? ‘Bora acordar às 4h00!

 

 

 

Um leão. Uma leoa.

 

Quando todos os outros carros veem o leão

 

 

Como assim, ontem à noite entraram hienas no nosso campo?!

 

 

Onde estão os binóculos? Eu quero uns binóculos!

 

 

Uma hora no carro às voltas e nada…nem um bicho. Nada de nada zzzzzzz

 

 

Ooooooooooooh! Uma hiena bebé! Fofinha.

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Uma manada de leões! Um leão a comer!

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Ooooooooooooh! Um, dois,... Três Simbas bebés!

 

 

Como assim, já acabou? Vamos embora amanhã?

 

Racismo na África do Sul

04.04.17

ApartheidSignEnglishAfrikaans.jpg

Gostei tanto da África do Sul, que continuo a pensar em viver lá. Entre outras coisas, há uma que me faz repensar o plano: o racismo.

 

Comecemos pelo início. Ainda antes do Cabo das Tormentas passar a Boa Esperança, havia vida e comércio na África do Sul. Quanto ao Vasco da Gama e aos Portugueses, parece que acharam mais piada a Moçambique e pararam pouco por aquelas bandas - ainda assim, naufragaram umas quantas vezes, negociaram muitas pessoas escravizadas e outras coisas mais!

Já os Holandeses fizeram de Cape Town (a Cidade do Cabo em Português) um porto gigante e um mercado ainda maior, onde os barcos paravam e abasteciam antes de seguir caminho. Para manter a coisa a funcionar, trouxeram da Indonésia milhares e milhares de pessoas que, obviamente, escravizaram. Outras milhares nunca chegaram a ver Cape Town, morrendo pelo caminho ou, o extremo acto de rebeldia, suicidando-se!

 

Mais tarde, os Ingleses dão uma tareia aos Holandeses, ficam a dominar a coisa e mais de 15 mil pessoas são trazidas da Índia - também para ser escravizadas, obviamente.

Esta misturada reflecte-se em Cape Town de várias formas: comida Índia boa, bairros super coloridos, metade da população é muçulmana e há pequenas mesquitas por toda a cidade. 

 

Depois veio a caça ao ouro e depois, quando a coisa devia melhorar, no final da II Guerra Mundial, só piorou. Veio o Apartheid e a África do Sul passou a ser um país, onde a segregação racial era lei, estando assente na divisão de quatro grupos. Os brancos, que nem a 10% da população eram e que podiam tudo e os outros, que não podiam nada, nem votar! Os outros três grupos eram: os misturados, ou seja, pessoas mais ou menos brancas. Os Indianos, que eram todos aqueles com traços asiáticos, não importava se vinham da Índia, da China ou do Japão, era tudo igual! E, no último grupo, estava a maioria da população: os negros. Durante o Apartheid existia uma comissão que definia o grupo de cada um, medindo cabelos, avaliando tons de pele e escrutinando narizes e rabos alheios!

Cada pessoa, aliás os não brancos tinham, por lei, de andar acompanhada dos seus papeis de identificação; havia hora de recolher e zonas das cidades onde não podiam entrar - ou viver! Os brancos podiam tudo: votar, ficar com as terras do vizinho não-branco - ainda hoje há gente a tentar recuperar casas e terras!  Aos não-brancos eram-lhes destinados hospitais com menor qualidade, menos médicos, nas escolas aprendiam cursos/trabalhos técnicos - aliás, muitos conseguiram fazer cursos universitários, porque estuvam por correspondência em universidades estrangeiras. E, claro, quem não era branco viva no gueto.

Estamos a falar de um sistema que durou até 1994! Sim: 1994! E mesmo assim, em 1994 houve um referendo, com cerca de 40% (dos brancos) a dizer que era melhor a coisa continuar como estava!

 

Mandela é um símbolo do Apartheid. Sobretudo, porque depois de passar 27 anos preso, saiu apelando à paz e à reconciliação. A teoria dele era simples: “se ele podia perdoar, os outros também”! Não sei se já viram algum vídeo de Nelson Mandela, mas ele é muito poderoso. Tem carisma, tem voz, tem… é o maior! Além disso, era um homem que gostava da vida: de comer, de dançar, de rir e eu valorizo essa gente!

 

Hoje em dia na África do Sul, não há Apartheid, há até um sistema de quotas determinado a tentar restabelecer o equilíbrio laboral. No entanto, a divisão é clara. Acho que só vi um branco a pedir dinheiro e, claramente, tinha algum problema mental. Quem serve à mesa são os negros, assim como quem trabalha no supermercado, quem limpa as ruas e, claro, quem limpa as casas e cuida dos jardins. Nos cafés e restaurantes hipsters, os brancos são os únicos a consumir.

Demoramos mais de duas semanas para entrar num restaurante onde negros e brancos serviam e comiam. Só se vê meninos negros a ir a pé para a escola. Os brancos têm empregadas domésticas negras, a quem por lei pagam 1,10€ à hora - a África do Sul tem um custo de vida muuuuito próximo da Europa. E quando falamos de empregadas domésticas na África do Sul, falamos daquelas empregas à antiga, de farda e que trabalham ao fim-de-semana. Algumas vivem até na casa dos patrões.

Muitos dos brancos que conhecemos na África do Sul evitam o tema e muitos e, pareceu-nos, vivem na sua redoma e mal conhecem o bairro onde vivem. Recordo-me que em Cape Town, nos recomendarem um super-mercado super longe, porque não havia nada perto. Para depois descobrirmos que a cinco minutos de casa, havia imensas lojas e mercearias... e estamos em 2017! 

 

 

Guia para viajar na África do Sul

Fui à África do Sul e pensei

27.03.17

Fi 

áfrica do sul línguas oficiais

 

Passei três semanas felizes a viajar pela África do Sul. Voltei no domingo e não sei se a coisa entranhou ou se ainda estou anestesiada da euforia, mas bem que podia deixar tudo e voltar. E viver. O país é lindo e outros adjectivos mais. Na memória, tento reter a imensidão! Paisagens infinitas, terra sem fronteiras, oceanos sem terra à vista. E não é uma vastidão que nos engole, é uma imensidão que nos abraça. Aqui ficam alguns pensamentos destas últimas semanas.

 

“Do aeroporto de Cape Town ao centro: pior que favelas, bairros de lata! “

 

Da série escravidão, o Apartheid e o racismo em 2017:

“Brancos que vivem em bolhas, sempre de carro e que nem sabem dos supermercados e restaurantes que têm a cinco minutos de casa.”

“Empregadas domésticas de uniforme e que trabalham ao fim de semana. Ganham 1,10 euros à hora. Negras, obviamente!”

 

“Bo Kaap é fofinho.“

 

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“Uma pessoa vai à Table Mountain a pensar que é só mais uma atracção turística demasiado valorizada e sai esmagada! Incrível!“

 

Da série escravidão, o Apartheid e o racismo em 2017:

“Tantas mesquitas em Cape Town. Como é que é possível? Ah, pois, milhares de pessoas escravizadas trazidas da Indonésias pelos Holandeses.“

“Comida Indiana como na Índia em Cape Town. Como é que é possível? Ah, pois, milhares de pessoas escravizadas trazidas da Índia pelos Ingleses.“

 

De carro pela costa Oeste – e mais tarde pela Garden Route:

“Quero viver aqui. Não aqui. Esqueçam: vai ser aqui! Não, melhor aqui... ou talvez aqui”.

 

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“Ele há coisas... Pinguins em África! Senhoras e senhores e Darwin: apresento-vos o Pinguins Africano!”

 

“Fui à procura do Adamastor!”

 

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“Mau! Primeiro é o Viriato que não existe, agora é a descoberta que não é no Cabo da Boa Esperança que se juntam os oceanos Atlântico e Índico, mas sim no Cabo Agulhas!”

 

“Como assim não há baleias? Como assim só podem ser vistas entre Junho e Dezembro? Eu quero baleias!”

 

Numas vinhas perto de Hermanus, depois de ser atendida por uma empregada suuuuuper simpática e já bem tocada pelo vinho, que terá bebido por causa do trabalho - ela faz mostras de vinho:

“Como é que eu nunca pensei antes em trabalhar numa vinha? Vou deixar o meu cv!”

 

No Cabo Agulhas, o vento é tanto que:

“O Adamastor existe e vive aqui!”

 

“Gosto de carne de avestruz.”

 

“Talvez pudesse mesmo deixar tudo e viver aqui!”

 

“Na África do Sul não há carne má. Nem vinho!”

 

“Mas será que cada vez que venho à praia começa o vento?!”

 

“Quatro horas armada em Lara Croft para ver focas ao longe – onde elas devem estar!”

 

“Um elefantes!! Outro!! E mais um e mais outro!! E zebras! E impalas! LINDOOOOO!”

 

Na estrada, um polícia manda-nos parar todo sorridente e depois de muito bla bla bla, diz que nos vai multar e pede-nos quase 60 euros. A conversa foi mais ou menos isto:

Polícia - "Parece-vos muito? Quanto é que vocês acham que devia ser?"

Eu - "Nós decicimos? É muito, sim, mas se tem de ser.... Como não temos dinheiro, temos de ir à esquadra pagar. Passe a multa que nós vamos lá."

Polícia - "É muito longe! Melhor pagar aqui! Quanto é que querem pagar?"

Eu - "Se é a lei nós pagamos, mas estamos mesmo sem dinheiro e teremos de ir à esquadra!"

Polícia - "Parece que é mesmo um bom dia e é o vosso dia de sorte, podem ir sem multa!

 

africa do sul turismo

“Que piroseira uma estátua de uma girafa à porta de casa! Está-se a mexer!!!! É verdadeira!!!”

 

"Viagem, viagem. Viagem, viaaaaaagee!"

 

Na costa Este, Wild Coast:

“Os contrastes e antónimos na África do Sul: branco/negro; oeste/este; litoral/interior; rico/pobre!

 

Da série escravidão, o Apartheid e o racismo em 2017:

“Meninos que vão para a escola a pé. Meninos de 5 anos que vão sozinhos pela auto-estrada para chegar à escola. Meninos que levam os livros em sacos plásticos, porque não têm mochilas. Meninos negros, obviamente!”

 

Da série escravidão, o Apartheid e o racismo em 2017, em Durban e a quase duas semanas de viagem:

“Finalmente um restaurante com brancos e negros a trabalharem e brancos e negros sentados à mesa!”

 

No Kruger, a maior reserva natural da África do Sul, onde se podem fazer safaris conduzindo o próprio carro e ver os animais no seu habitat natural:

“Raios, esta coisa é do tamanho da Bélgica!”

 

kruger park preços

“Vi leões. Vi elefantes. Vi búfalos. Vi rinocerontes. Vi UM leopardo. Vi os Big Five!”

 

“Um safari deve ser tipo ter um filho! Quando a criança nasce a alegria é tão grande que as mães se esquecem das dores, enjoos, inchaços e algumas até repetem a dose! Nos safaris todos falam da alegria de ver os bichos, mas ninguém fala que se pode estar uma hora ou mais até que algo aconteça!”

 

“Que se lixe, deixo tudo e venho viver aqui!”

 

"Quase três semanas de viagem na África do Sul e 4 046 km de carro! Por la carretera...!

 

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Em Joanesburgo no Museu do Apartheid, a confirmação:

 “O Mandela foi o maior!”

“O ser humano é mesmo estúpido!”