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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

Isto é para a geração que diz que não lhe é permitido sonhar

20.06.15

Aiiiiiiiiii, chega! Basta! Basta do eu-fiz-o-meu-curso-e-este-país-não-me-aproveita!

Sim, Portugal está uma porra e um país onde ganhar 700 euros é já muito bom e deus nosso senhor nos livre de pedir dinheiro pelas horas extras, porque ter trabalho é uma sorte e há quem esteja pior! Mas deixemos, este tema para outro dia!

Já não consigo ler mais artigos de opinião, posts, comentários, etc. de recém-licenciados, que esperam acabar o curso e ter um trabalho de maravilha, com excelente salário, férias de luxo e ainda dinheiro para o primeiro carro! Amigos, isso não acontece em NENHUM LADO! Mesmo na Alemanha e na Inglaterra, onde há trabalho (deixemos também esta discussão para outro dia), a maioria dos jovens passa os primeiros anos a pagar os empréstimos ao banco pelo curso que fez - sim, porque nem todos têm o "esforço dos pais" a pagar a licenciatura!

Eu entendo a revolta e, a sério, que entendo a frustração, mas vamos ser pragmáticos: Portugal continua a produzir um número absurdo de licenciados, sobretudo em áreas que não necessita - falo de psicoóogos, enfermeiros, professores, etc. Claro que cada um é livre de seguir o seu sonho e de tentar e de acreditar que tem uma estrelinha da sorte, que pode ter! Mas não vai funcionar três meses depois do curso terminar!
Além disso, há uma forte crise, cortes, impostos, etc., mas sobretudo há toda uma geração que continua a achar que universidade é sinal de trabalho e de status e de bons salários e, ainda pior, com bastante preconceito relativamente aos curos e trabalhos técnicos!
Não quero parecer insensível, até porque eu também passei por isso, eu também me frustrei e pelo meio trabalhei num call center, odiando cada dia e cada minuto.
Eu sempre soube que tirando o curso que tirei, que tal coisa poderia acontecer. Sempre soube que tirando o curso que tirei, que o meu salário não passaria dos 600 euros (com sorte). Foi um risco e responsabilizei-me por ele.

Hoje em dia, a verdadeira prova de fogo, não é terminar o curso com 18 valores, mas sim superar o que vem depois. Aprender a lidar com a frustração, sem nunca desistir ou baixar a cabeça. E isso pode significar aceitar os 700 euros, explorar outra área profissional, ir para o estrangeiro ou dedicar-se à pesca, o que não dá é para vivermos na lamuria eterna provocada pelo país castrador, pensando no que poderia ser - ou deveria ser!

Por isso, Andreia, força, estou contigo! Sonha, sonha muito, que isto ainda agora está a começar e, pode não parecer agora, mas o melhor está para vir!

Os limites do humor

15.06.15

twitter.censura.jpg

 

Longe de mim, achar que sou capaz de impor ou estabelecer limites ao humor. A meu ver, o humor não tem limites, eu sou menina para me rir de piadas de velhinhos e aleijados e não acho que isso me faz insensível, nem faz nascer em mim qualquer tipo de potencial para discriminar quem quer que seja. Pelo contrário! Gosto de humor negro, uso a ironia como se não houvesse amanhã e o sarcasmo é meu amigo. Aprecio humor negro e acho que a rir se corrigem costumes, se consciencializa e podemos ser todos mais felizes.

Se acho piada a tudo? Bem, depende da piada e da sua qualidade - e não do grupo visado!

 

A que propósito vem tudo isto?
Guillermo Zapata nem 48 horas esteve como "concejal" de Cultura y Deportes del Ayuntamiento de Madrid. Razão? Uns antigos tweets de 2011, com piadas negras. Aqui fica o mais polémico:

“¿Cómo meterías a cinco millones de judíos en un 600? En el cenicero”

 

O próprio defendeu-se com a liberdade de humor e depois meteu a mata, na minha opinião, com a história de que usava o Twitter para fazer experiências pessoais e que aquele tweet foi descontextualizado, que foi retirado de “una conversación sobre los límites del humor y aquello que se puede y no se puede decir en las redes y fuera de ellas". Ok, pode até ser ou não ser, o que importa? Porque razão não pode ele publicar ou achar piada ao tweet? Podia até estar a twitar para um amigo judeu! E mesmo que não estivesse...

Ok, este senhor tem agora um papel político, certos comentários não lhe ficam bem, nem piadinhas que deixam parte do mundo tão sensível - ainda que eu imagine uns quantos judeus a rirem-se com a piada ou até a ser dita em Seinfeld, mas avante! Todavia, num país como Espanha (e Portugal) onde políticos suspeitos e julgados em tribunal se candidatam e ganham eleições, este senhor demitiu-se sem ter tido sequer a oportunidade de começar, porque tweetou! Pois, sim, somos todos Charlie!

 

E depois, claro está, há ainda outras cem mil sitiuações, onde ninguém se demite. Engraçado!

Madrid me mata e/ou coisas de e/imigrante

25.05.15

Sobre as eleições


Ontem foi um dia muito importante para Espanha e chateia-me que, lendo jornais portugueses, ninguém tenha entendido a dimensão da coisa. Mas eu entendo, até porque apesar de sermos vizinhos não sabemos uns dos outros - eu também não sabia há cinco anos atrás!

Tal como em Portugal,, há dois partidos de "toda la vida" e quando não ganha um, ganha o outro: o PP (tipo PSD) e o PSOE (tipo PS, mas às vezes mais conservador que o Portas). Os partidos em Espanha são como em Portugal, intocáveis, com cheirinho a corrupção e mesmo assim, o "pueblo" vota ora num, ora noutro (a chamada tortilha política), porque o pai era PP, o avô era PP e toda a linha familiar assim o será - sabem o futebol? É tipo isto.

O PP, um bocadinho mais do que o PSOE, tem estado metido em tudo que é escândalo politico -"sobresueldos", o caso Barcenas (o da máfia da imobiliária), o Gurtel, Valencia,as prostitutas e a coca pagas com dinheiro público, a Ley da Mordaza, etc. Vergonha na cara zero e processos em tribunal muito menos.

O PP ganhou, mas perdeu todas as maiorias e, meus amigos eram muitas! O PP tem que governar e prestar contas do que faz e até fazer coligações. Ora que chatice.



Em Barcelona, onde há anos ganhava o partido de Más, esse senhor que poder ter contas limpinhas, mas que cada vez que abre a boca para falar em independência, quase que roça a fronteira da xenofobia, ganhou a fofa da Ada, A Ada é activista social, dessas que é presa pela polícia catalã e que quando gente se atirava pela janela, porque não podiam pagar hipotecas (e aqui em Espanha, a pessoa fica sem casa, mas continua a pagar), criou a Plataforma de Afectados por la Hipoteca e publicou o livro "Vidas Hipotecadas" (download grátis aqui). Ela, em conjunto com outras cidadãos empenhados, conseguiu casa para mais de 2 500 pessoas e impediu que outras 1500 ficassem sem casa.
Esta senhora não quer construir (mais) hotéis, nem privatizar. Ela quer melhorar coisas como os transportes públicos e impedir bancos de despejarem famílias, para depois manterem os apartamentos vazios, entre outras coisas boas.


São coisas como estas que fazem de Manuela outra pessoa importante nesta história!
Uma antiga juíza de 71 anos, que lutou contra a corrupção que existia (existe possivelmente) dentro dos tribunais espanhóis, entre outras coisas. Ela poderá (com coligação) ser a próxima Alcadesa de Madrid e isso significa duas coisas: derrotar a Esperanza Aguirre (a mesma senhora que em plena Gran Via quase atropelou um polícia para não pagar uma multa e que disse que gostava muito dela - referia-se a Sara Mago!) que tem e quer privatizar tudo quanto pode em Madrid e também derrotar o PP em Madrid,  o partido que há quase 30 anos governa com maioria absoluta. Se Manuela ganhar haverá pela primeira vez uma auditoria às contas da cidade (uau) entre outras coisas, como colocar a Igreja a pagar impostos pelo seu património..

Outra coisa que não fica claro na imprensa portuguesa é: o Podemos não perdeu, porque o Podemos não se candidatou. Não tinha candidato. O Podemos apoiou candidatos - entre elas a Ada e a Manuela.

Se isto tudo me deixa feliz? Sim, muito.
É com muita expectativa que vou acompanhar os mandatos destas duas senhoras, até porque ganhar uma coisa e governar é outra - e calma, porque a Manuela ainda não é boss oficialmente! Mas algo novo vem aí e cheira melhor do que o antigo! A ver!

Ada Colau e Manuela Carmena