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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

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Eu falho, tu falhas, ele falha, NÒS FALHAMOS

23.04.17 | Maria vai com todos

falhar

Há pouco tempo discutia-se o falhanço. O difícil que é falhar algo (não conseguir um trabalho, terminar uma relação, não cumprir o plano de dieta, etc.) e assumir que se falhou. Sem desculpas e sem piedade. Assumir a nós e assumir perante àqueles que nos rodeiam, como se nós não fossemos o resultado dos nossos erros, das nossas falhas, das nossas debilidades. Sim, sim, todos falham, mas lá está, com o mal dos outros pode cada um de nós bem, certo? 

Houve quem admitisse que com a Internet e as redes sociais era ainda mais difícil assumir o falhanço. Todos os outros com vidas tão perfeitas, tantos sorrisos, bem vestidos e satisfeitos e nós… feitos um caco. É claro que a Internet vale o que vale, vai-se a ver e o pai bate na mãe; a a mãe tem um amante e foram precisas 67 selfies para obter aquela fotografia ser perfeita! A realidade é-nos apresentada de forma construída e nós, tontos, já deixamos de a questionar. Acreditamos em tudo o que nos chega, comemos tudo que nos servem… e assim medimos as nossas conquistas, sempre em comparação.

 

Fala-se apenas do falhanço quando se fala do sucesso - “Para chegar aqui, muitas foram as portas que bateram na minha cara…” E aqueles a quem as portas continuam a bater na cara? E aqueles a quem o amor maltrata? A esses dizemos que um dia as coisas vão melhorar: vão encontrar um melhor trabalho e, claro, o amor vai chegar. Vai mesmo? E se não vier? Não é melhor já lidar com isso? 

 

Durante a conversa, eu disse que desde sempre foi habituada a ponderar tudo.. Quando tomo decisões penso sempre no pior: vou viver para a rua, apanho uma depressão, acaba-se a relação, vai haver uma guerra. E, acreditem, eu não sou pessimista, simplesmente pondero tudo, tudinho. Mesmo com a tristeza e com a ansiedade permito-me ficar triste e/ou fodida coma  vida. O mesmo com o mau humor. Dou-me prazos, do tipo “amanhã acaba-se isto” - falo a sério, eu não tenho pachorra para me aturar nem de trombas, nem triste. Isso e pôr a coisa em perspectiva, com tanta dor e horror neste mundo, os meus problemas são de gente privilegiada! Não sei o que diriam os grandes psicólogos, mas para mim, por enquanto, vai funcionando.

Não contem a ninguém, mas eu gosto da canção da Eurovisão

21.04.17 | Maria vai com todos

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Nunca liguei nada à Eurovisão - nasci em 1986 e acho que isso explica muita coisa. Ainda assim, sei muitas músicas do Festival da Canção, porque tenho uma mãe que cantaroleia muito em casa. Entre as minhas favoritas estão a do Paulo Carvalho, o E depois do adeus; a Tourada do Fernando Tordo ou a Festa da Vida do Carlos Mendes. O Sol de Inverno da Simone é das canções mais lindas de sempre e a Madrugada de Duarte Mendes, uma das mais belas e menosprezadas músicas de sempre! Depois há aquelas que são sempre canções felizes. Isto é canções que não são geniais, mas que todos cantamos e nos fazem rir. Tipo o Conquistador, o Ele e Ela ou o Amor d’ Água Fresca. Canções das Doce ou do Carlos Paião. Dito assim, parece que sei alguma coisa sobre o festival, mas a verdade é que da minha geração, sem ser a Sara Tavares (tão fofinha) e a Lúcia Moniz e o cavaquinho não sei de nada mais. Na verdade, nunca vi um festival do inicio ao fim. 

 

Só comecei a "acompanhar" a coisa quando vivia em Madrid! Os espanhóis são LOUCOS pelo festival da canção e ainda há toda uma geração mais nova que acompanha a coisa e vibra com aquilo. Lembro-me que não via o festival, porque nem TV tinha, mas dias sempre, havia sempre alguém (aka um espanhol) que ia buscar o computador e lá parava tudo para vermos vídeos da Eurovisão. Era um fartote.

 

Agora já não vivo em Madrid. Em Berlim, parecem todos tão interessados no Festival da Canção como eu na pesca dos gambuzinos. Na verdade, tinha-me até esquecido, até que…

 Até que lá vieram os meus amigos de Espanha com o “me encanta la canción de Portugal!”. Um deles fez-me logo o filme todo, que era dos Ídolos e jeitoso e que estava no top das apostas. Quando me disse que era o irmão da Luísa Sobral, torci logo o nariz, pois não gosto muito do género, nem da voz. Gostos, nada mais. Adiante: não é que ouvi o raio da canção do Salvador Sobral e gostei?! Mas gostei mesmo. Além disso, ele parece-me ter carisma e presença. Até me dá pena que tenha de ir ao Festival da Canção, pois acho sempre que aquilo não dá carreira a ninguém. Mas que se dane: vai Salvador! Dá cabo deles!

Fui à Roménia e ainda não encontrei um adjectivo

19.04.17 | Maria vai com todos

bucareste_capital da romenia

 

Aproveitando a Páscoa (Aleluia, aleluia e venham a mim os ovos de chocolate, quanto maiores melhor!) fui quatro dias à Roménia. Antes que perguntei, não, não fui ao Castelo do Drácula. As tours eram caras e ir por conta própria era bem complicado. Além disso, aconselharam-nos Sinaia e lemos que o Castelo de Peles era mais lindinho. Posto isto, chegamos a Bucareste, apanhamos o comboio para Sinaia onde passámos dois dias e depois fizemos outros dois dias em Bucareste, na capital.

A Roménia não é aquela Europa bonitinha. Nem se compara com a Hungria ou a República Checa, dois países da antiga soviética, mas com capitais lindinhas - refiro-me a Budapeste e a Praga, respectivamente. Na Roménia, o turismo começa agora a abrir, mas está longe de estar a bombar. É um país barato, mas não tão barato quanto esperava.

Quando viajo, das coisas que mais gosto é de admirar as pessoas: os gestos, a dinâmica com os outros e com o ambiente que as rodeiam; as modas (como diria a minha amiga Lara), etc. Gosto de me informar sobre a história do país, a realidade actual e tentar ver/entender como uma coisa influencia a outra. Fico a olhar para os outros e o interesse aumenta quando estão em grupos, com namorados, filhos, etc. Gosto também de falar com as pessoas e saber mais sobre a vida delas. Resumindo: sou uma alcoviteira.

Na Roménia, custou-me muito interagir com os outros. Tenho pensado e ainda não consegui encontrar O adjectivo certo para definir os Romenos - ok, ok, estereotipar é feio; mas não se trata de discriminar. Trata-se de encontrar um traço comum, uma linha. Não são brutos, mas pouco ou nada sorriem! Dizem pouco "obrigada" ou "por favor", mas também não mal-educados. Não se interessam, mas não ignoram. Fazem comentários estranhos, mas sem que sejam desagradáveis, é como senão houvesse filtro. Mesmo nas paisagens há uma certa desolação, sem que haja sentimento. Como qualificar isto? 

Portugal reconheceu injustiça da escravatura quando a aboliu, disse Marcelo

13.04.17 | Maria vai com todos

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E tudo graças ao Marquês de Pombal! E o Presidente da República ainda disse mais! Ele disse "(...) essa decisão do poder político português foi um reconhecimento da dignidade do homem (...) Nessa medida, nós reconhecemos também o que havia de injusto e de sacrifício nos direitos humanos"

 

Ai este Marcelo tão brincalhão! Um maroto!

Chateia-me tanto, mas tanto esta coisa Portuguesa do passado glorioso, com tão pouco espaço para culpabilização e análise e consciência! Comecemos pelo facto de que a escravatura em Portugal só foi abolida em 1878, tendo depois arrastado num processo de colonização que durou até 1974! Só para a Baía, Portugal levou mais de 1 700 000 milhões de pessoas que, obviamente, escravizou! Agora somem os outros milhares que chegaram a outras cidades Brasileiras, sem esquecer no resto das colónias. Crê-se que mais de 12 milhões de pessoas foram escravizadas pelos Portugueses, Ingleses, Espanhóis, Holandeses e por aí fora! Só isso é mais do que um Portugal inteiro! E depois somem os milhares que morreram pelo caminho!

 

Para o senhor presidente bastou abolir a escravatura para ficar tudo bem e Portugal e o mundo deixar de ser um lugar racista. Como se ainda hoje, o racismo não fosse um problema e um travão ao desenvolvimento destas nações. Menos saudade, menos império, menos "Viva Portugal" e mais noção e espirtio de auto-crítica.

 

 

Estudantes finalistas acusados de vandalizar hotel em Espanha são afinal anjinhos

10.04.17 | Maria vai com todos

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Já sabem? Foram expulsos entre 800 a mil estudantes do secundário de um hotel espanhol, em Torremolinos, acusados de vandalismo. A polícia Espanhola foi chamada a intervir várias vezes e fala em milhares de euros em danos.

 

Quem não sabe ao que estes estudantes vão, eu digo: uma semaninha livre, sem pais, sem mães ou professores. Há praia, há álcool, há drogas e, por norma, não há rock & roll, porque as discotecas só passam house ranhoso - ou pelo menos assim era no meu tempo. Agora deve ser mais Rihanna e Justin Bieber.

 

E não, eu não estou armada em santa, nem de dedo empinado a dar lições de moral. Longe de mim. Eu fiz o mesmo e diverti-me MUITO! Lembro-me de irmos para a piscina à noite; de levar os colchões de um quarto para o outro, porque queríamos dormir todos juntos e de sair da discoteca para ir dormir na praia com os meus amigos. Ou seja, já estive no convento - não estou a defender o que se faz, nem como se faz, nem o certo do errado. Apenas digo: é assim. Sem adultos a supervisionar a coisa vira mesmo uma selva… e aos 17 anos, isso é, convenhamos, maravilhoso.

 

O que eu tenho achado maravilhoso no meio desta história toda são as desculpas! “Ah e tal a comida era má! Ah e tal havia baratas! Ah e tal foi só um extintor/uns azulejos/uma parede! Ah e tal… eram cânticos de revolta!”

Vá todos juntos: ahahahahhahahahahahah! Eu ontem também não fiquei lá muito satisfeita com o meu brunch e pus-me a partir a louça toda do restaurante!

 

Agora o que me deixa de boca aberta (e não me dá vontade de rir) é haver pais a darem a cara e a defenderem os actos dos filhos, mesmo que sejam os filhos dos outros. Pessoas: há polícia envolvida! Mais, este tipo de hotel todos os anos recebe este tipo de viagens e já devem ter visto MUITA coisa. Claramente, até para eles houve limites. No DN, um pai acusava o hotel de não cumprir o contrato. Transcrevo: "Ao segundo dia fecharam o bar e, ao contrário do que dizem, os miúdos só tinham acesso a uma bebida cada”. E, claro, os filhos dele não viram nada, nem sabem de nada.

Uma mãe disse à TVI 24, que tudo isto eram “são comportamentos “normais” - epa, normais são, mas criminosos também, minha senhora? Alguém que lhe explique, por favor. E disse também “"se queremos as pessoas sossegadas e quietas, compramos um hotel em Fátima”. A serio pais de Portugal? Asério que doi tanto assim admitir que os vossos filhos fazem merdinha e não são anjinhos perfeitos? Têm de falar com a minha mãe, pois mesmo à distãncia, quando algo desaparece/se perde/está fora do sítio/etc. lá em casa, ela continua a achar que a culpa é minha 

 

Estados de alma num safari

09.04.17 | Maria vai com todos

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Quando fui à África do Sul, na hora de planear a viagem, deixamos o Kruger para o fim. O Kruger é uma coisinha do tamanho da Bélgica, situado no nordeste do país. O parque é a maior reserva natural da África do Sul e aqui podem ser vistos vários bichos, entre eles os big five, designação dada aos grandes predadores: os leões, os rinocerontes, os búfalos, os elefantes e os leopardos. Dentro do parque existem vários tipos de hospedagem, pois é possível passar a noite lá, no meio da selva, cheios de bichosas à volta - sempre com regras, por exemplos, sem guias, os visitantes só podem andar no parque entre as 5h30 e as 18h00. Quanto custa? Existe alojamento para todos os bolsos, desde 20 euros por noite, a hotéis super exclusivos e luxuosos - e lamento, mas isso eu não sei quanto custa, que o meu orçamento não me permite.

 

Apesar de ser possível fazer safaris privados (há-os às 4h00, 12h00 e 18h00) - e valem a pena, na minha opinião. É tudo uma questão de sorte, porque os bichos não têm propriamente uma agenda e não obedecem  compromissos. Ainda assim, os safaris permitem ir a zonas e em horários, onde de forma natural não iríamos. No Kruger, o mais comum é um safari self-drive, onde cada um vai no seu carro e explora ao seu ritmo - sendo que há regras além do horários, como não passar ds 40 km, não sair do carro, etc. As pessoas estão por sua conta e risco e, sim, merda acontece.

 

No Kruger foi como ter 5 anos outra vez. Há uma excitação infantil, a roçar o histerismo, quando se vê um bicho, pela primeira vez. Depois há um deslumbramento, porque animais como um leão, um leopardo ou um elefante são mesmo muito especiais de ser ver. Vê-los em grupos, as dinâmicas, as crias, (tentativas de) caça, a comer, etc. E, sobretudo, vê-los ao longe, no seu habitat, sem bichos drogados ou mal-tratados ou acorrentados ou enjaulados. Como tem de ser. Bem, aqui ficam alguns estados de alma num safari 

 

A primeira vez que se vê um bicho qualquer

 

 

5 Dias de safari, uma banda sonora

 

A primeira vez que se vê um impala

 

 

A 837384768 vez que se vê um impala

 

 

Ooooooooooooh! Elefantes bebés!

 

 

Mais elefantes. Adoro elefantes!

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Umas hienas rondam uma zebra. D/vida moral: torcer pela zebra ou pelas hienas? Ver uma caçada era fixe! Coitadinha da zebra! Escapou-se, felizmente! Oh, nada de caça!

 

 

 

Leopardo à vista!

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Vê-se mais bichos pela manhã? ‘Bora acordar às 4h00!

 

 

 

Um leão. Uma leoa.

 

Quando todos os outros carros veem o leão

 

 

Como assim, ontem à noite entraram hienas no nosso campo?!

 

 

Onde estão os binóculos? Eu quero uns binóculos!

 

 

Uma hora no carro às voltas e nada…nem um bicho. Nada de nada zzzzzzz

 

 

Ooooooooooooh! Uma hiena bebé! Fofinha.

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Uma manada de leões! Um leão a comer!

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Ooooooooooooh! Um, dois,... Três Simbas bebés!

 

 

Como assim, já acabou? Vamos embora amanhã?

 

Pais e mães na Alemanha

06.04.17 | Maria vai com todos

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Cheguei àquela idade fo.... chata, onde invariavelmente a conversa descamba para o "ter filhos", "os filhos dos outros" ou um "quando eu tiver filhos"! Como vivo na Alemanha, a coisa vai mais longe e recai muito no "ter filhos na Alemanha", sendo o tópico mais interessante para os demais, "os Alemães enquanto pais"!

 

Obviamente que são conversas cheias de observações empíricas, até porque conheço pouca gente com filhos nesta terra. No entanto, o que mais me surpreende (e irrita um pouco, tenho que admitir) são perguntas de não-Alemães como "mas eles não são nada carinhosos, pois não?" ou "eles são muito frios, certo?" 

Quanto ao "ELES", referem-se aos Alemães, numa ideia implícita de que são com certeza péssimos pais. Vamos lá ver se entendemos uma coisa, os Alemães são fofinhos com os filhos. Dão abracinhos e beijinhos. Dão-lhes a mão e, uma grande prova de afecto a meu ver, é a paciência descomunal que têm para acompanhar os filhos em passeios de bicicleta. Falamos de putos com pernas com menos de 50 cm e lentos, muito lentos! As crianças parecem bem alimentadas e vão à escola. E, espanto!, aqui também há miúdos que berram, amuam e fazem birras!

 

Ainda assim, continuo a achar que se há algo que os Alemães fazem bem é educar cães e crianças! As principais diferenças que eu encontro, comparando com Portugal ou com Espanha, onde vivi cinco anos é que há uma noção clara de limites. Há reconhecimento e respeito do espaço do outro, da sua privacidade, do seu silêncio, etc. Algo que me parece ser incutido às crianças desde muito cedo. Apesar de já ter visto berros e birras aqui, Portugal e Espanha, ou melhor, as criancinhas de Portugal e Espanha continuam a ganhar aos pontos!

 

Outra coisa que se valoriza muito na Alemanha são as actividades ao ar livre. Mesmo se faz frio, os putos andam na rua. É comum vê.-los tipo bonecos da Michelin a saltar em poças, a mexer na terra, a ir de bicicleta (mesmo que mal caminhem) e, loucura das loucuras, a brincar na rua. Quando crianças do infantário ou da primária saem do espaço escolar para ir algum lado, não há autocarros escolares. Usam os transportes públicos. É comum vê-los no metro ou no autocarro todos felizes.

 

Isso reflecte-se também na forma de vestir. Aqui parece que ninguém liga muito a isso - aliás, em Berlim, até os adultos são relaxados! Nota-se que há muita preocupação com o conforto e às vezes é com cada combinação que "jazus"! O mesmo com coisas como os brinquedos ou mochilas. Não há muita extravagância. Já vi miúdos com mochilas de modelos tão antigos, que parecem herança paterna. Vendo isto assim, parece-me que estão no bom caminho.

Racismo na África do Sul

04.04.17 | Maria vai com todos

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Gostei tanto da África do Sul, que continuo a pensar em viver lá. Entre outras coisas, há uma que me faz repensar o plano: o racismo.

 

Comecemos pelo início. Ainda antes do Cabo das Tormentas passar a Boa Esperança, havia vida e comércio na África do Sul. Quanto ao Vasco da Gama e aos Portugueses, parece que acharam mais piada a Moçambique e pararam pouco por aquelas bandas - ainda assim, naufragaram umas quantas vezes, negociaram muitas pessoas escravizadas e outras coisas mais!

Já os Holandeses fizeram de Cape Town (a Cidade do Cabo em Português) um porto gigante e um mercado ainda maior, onde os barcos paravam e abasteciam antes de seguir caminho. Para manter a coisa a funcionar, trouxeram da Indonésia milhares e milhares de pessoas que, obviamente, escravizaram. Outras milhares nunca chegaram a ver Cape Town, morrendo pelo caminho ou, o extremo acto de rebeldia, suicidando-se!

 

Mais tarde, os Ingleses dão uma tareia aos Holandeses, ficam a dominar a coisa e mais de 15 mil pessoas são trazidas da Índia - também para ser escravizadas, obviamente.

Esta misturada reflecte-se em Cape Town de várias formas: comida Índia boa, bairros super coloridos, metade da população é muçulmana e há pequenas mesquitas por toda a cidade. 

 

Depois veio a caça ao ouro e depois, quando a coisa devia melhorar, no final da II Guerra Mundial, só piorou. Veio o Apartheid e a África do Sul passou a ser um país, onde a segregação racial era lei, estando assente na divisão de quatro grupos. Os brancos, que nem a 10% da população eram e que podiam tudo e os outros, que não podiam nada, nem votar! Os outros três grupos eram: os misturados, ou seja, pessoas mais ou menos brancas. Os Indianos, que eram todos aqueles com traços asiáticos, não importava se vinham da Índia, da China ou do Japão, era tudo igual! E, no último grupo, estava a maioria da população: os negros. Durante o Apartheid existia uma comissão que definia o grupo de cada um, medindo cabelos, avaliando tons de pele e escrutinando narizes e rabos alheios!

Cada pessoa, aliás os não brancos tinham, por lei, de andar acompanhada dos seus papeis de identificação; havia hora de recolher e zonas das cidades onde não podiam entrar - ou viver! Os brancos podiam tudo: votar, ficar com as terras do vizinho não-branco - ainda hoje há gente a tentar recuperar casas e terras!  Aos não-brancos eram-lhes destinados hospitais com menor qualidade, menos médicos, nas escolas aprendiam cursos/trabalhos técnicos - aliás, muitos conseguiram fazer cursos universitários, porque estuvam por correspondência em universidades estrangeiras. E, claro, quem não era branco viva no gueto.

Estamos a falar de um sistema que durou até 1994! Sim: 1994! E mesmo assim, em 1994 houve um referendo, com cerca de 40% (dos brancos) a dizer que era melhor a coisa continuar como estava!

 

Mandela é um símbolo do Apartheid. Sobretudo, porque depois de passar 27 anos preso, saiu apelando à paz e à reconciliação. A teoria dele era simples: “se ele podia perdoar, os outros também”! Não sei se já viram algum vídeo de Nelson Mandela, mas ele é muito poderoso. Tem carisma, tem voz, tem… é o maior! Além disso, era um homem que gostava da vida: de comer, de dançar, de rir e eu valorizo essa gente!

 

Hoje em dia na África do Sul, não há Apartheid, há até um sistema de quotas determinado a tentar restabelecer o equilíbrio laboral. No entanto, a divisão é clara. Acho que só vi um branco a pedir dinheiro e, claramente, tinha algum problema mental. Quem serve à mesa são os negros, assim como quem trabalha no supermercado, quem limpa as ruas e, claro, quem limpa as casas e cuida dos jardins. Nos cafés e restaurantes hipsters, os brancos são os únicos a consumir.

Demoramos mais de duas semanas para entrar num restaurante onde negros e brancos serviam e comiam. Só se vê meninos negros a ir a pé para a escola. Os brancos têm empregadas domésticas negras, a quem por lei pagam 1,10€ à hora - a África do Sul tem um custo de vida muuuuito próximo da Europa. E quando falamos de empregadas domésticas na África do Sul, falamos daquelas empregas à antiga, de farda e que trabalham ao fim-de-semana. Algumas vivem até na casa dos patrões.

Muitos dos brancos que conhecemos na África do Sul evitam o tema e muitos e, pareceu-nos, vivem na sua redoma e mal conhecem o bairro onde vivem. Recordo-me que em Cape Town, nos recomendarem um super-mercado super longe, porque não havia nada perto. Para depois descobrirmos que a cinco minutos de casa, havia imensas lojas e mercearias... e estamos em 2017! 

 

 

Guia para viajar na África do Sul