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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

Os quartos dos filhos

31.12.14 | Maria vai com todos

Alguns amigos meus dizem-me que os pais deles mantêm de forma quase religiosa o quarto deles, mesmo após já terem saído de casa. Alguns até têm filhos.

No meu caso, a mudança foi gradual.
Primeiro tiraram as fotografias, pois tinham que pintar o quarto. Depois, colocaram uma máquina de costura.

E agora mudaram a cama, tendo o meu quarto sido convertido oficialmente num quarto de hóspedes. Restam-me os livros, alguma roupa e as minhas caixas e caixinhas.

Eu sempre guardei tudo - papéis de rebuçado, bilhetes de metro, pétalas de flores, etc. Eu que tenho uma memória de miséria, no que toca até a pessoas; mas consigo recordar-me só de olhar para um papel de sugo, o que fiz, com quem estava e a importância desse momento para mim.

Por isso, na outra noite, quando a minha mãe me veio com dois sacos de tudo o que restava da minha antiga secretária, para ver "o que presta", eu entrei em pânico.

Angustia-me pensar que possa ter ido para o lixo alguma coisa importante. O desenho de alguém. Um texto meu. Uma carta de um amigo.

Madrid me mata ou coisas de e/imigrante

23.12.14 | Maria vai com todos
Gran Via (Madrid), oito da manhã


A prova como Madrid estraga uma pessoa:

- Não estou em Madrid, é quase meia-noite e não há restaurantes abertos, nem um café que faça tostas. E como é que eu fico? Indignada, pois claro.

- Não estou em Madrid, peço uma cerveja  e nada de tapas. Nem uma batatinha! E como é que eu fico? Indignada, pois claro.

Sobre os dias e as épocas caca para se nascer e ser aniversariante!

22.12.14 | Maria vai com todos

Sou toda uma pessoa dada a aniversários. Gosto da festa, da celebração, do carinho e que se lembrem de mim. É verdade, sou um vil ser, sem auto-estima, que aprecia carinho e afecto.
Adiante.
Como nasci num dia de particular piroseira mundial, sempre dei por mim a pensar que há alturas mesmo más para nascer. Cá vão:

Nascer no início/final de Dezembro, início de Janeiro.
"Ai-ai-ai-que-o-Natal-está-a/já-passou". Conclusão? O pobre aniversariante fica remetido à humilhante condição de apenas poder ter uma BOA prenda.
Já para não falar que festas de aniversário com gorros de Pai Natal e luzinhas natalícias... ninguém merece!

Pior mesmo, só fazer anos na semana do Natal.
Assim sendo a festa de aniversário, passa a festa familiar e, ainda pior, o presente do Natal passa a ser também o dos anos.
E para piorar: crescer numa família beata e ter que escutar constantemente as belas anologias do "és um menino Jesus"!

Depois há o terror dos aniversários no Verão, em particular em Julho e Agosto.
Toda a gente está de férias! O que é suposto celebrar? Ou melhor: com quem? Onde estão os meus amigos?

Outro dia bastante lamentável para se nascer, é no Dia dos Namorados.
Todos os aniversariantes deste lindo dia, com certeza cresceram escutando:
- "Que sorte que tu tens, quando tiveres um(a) namorado(a) vais receber duas prendas. Ou então não! Ele(a) pode ser um(a) forreta e tu só receber uma!"

Nascer no dia 29 de Fevereiro.
Agora a sério: o que é aquilo? É suposto haver um lusco-fusco temporal para a celebração. E sim, ok, podem sempre celebrar no dia 28 ou dia 1 de Março... mas isso não pode ser a mesma coisa. Ou é?

E depois, claro, há os dias festivos de cada país.
Em Portugal, uma criança que nasceno 25 de Abril é presenteada com cravos vermelhos. No mesmo dia, na Ucrânia, é o dia dedicado aos documentários na TV e a não esquecer o desastre de Chernóbil. Vidas!

Mais alguma idéia por aí?

Os vizinhos

19.12.14 | Maria vai com todos


Aquele, não era um parque bonito. A relva estava gasta e havia muitos espaços com a terra seca, que faziam linhas, que se cruzavam, como se a terra ruísse. Mesmo assim, no meio de todos aqueles prédios, todos iguais e de janelas pequenas, aquele era o único parque.
Pela manhã, alguns velhos dromitavam ao sol. À tarde, algumas crianças brincavam nos velhos baloiços, já sem cor e muita ferrugem. Pela noite, só mesmo uns grupos de jovens é que por ali se reuniam e ao som de música, fumavam os cigarros comprados à socapa e bebiam litronas. Havia quem passeasse os cães, mas poucos.

Um dia ele viu-a e ela viu-o também. A viver naquele bairro desde que nascera e a trabalhar duas ruas abaixo, reconhecia uma cara nova à distância. Ela sorriu-lhe, mas virou a cara, puxando o rafeiro pela trela. Mesmo assim, ele ficou contente, há já muito tempo que ninguém lhe sorria e baixou-se para pegar a caganita da cadela, com o saco de plástico na mão. Odiava aquela a cadela e limpar a merda dela, humilhava-o ainda mais. Ele nunca quis a bicha. Era minúscula, ridícula e latia sem parar. Sentia-se um pateta ao lado dela. Menos mal que agora não usava aqueles lacinhos e casaquinhos que a ex-mulher insistia em colocar na bicha.
Quando a mulher o deixou, ele ainda pensou em vingar-se, abandonando a cadela, mas não teve coragem. Em vez disso, pegou-a entre mãos e elevando-a à altura dos olhos disse-lhe: "Acabaram-se as mariquices!".
Para ele acabaram-se também as comidas de dieta. E mudou de casa, para uma casa que podia pagar e mais perto do trabalho.

Passadas três semanas e várias saídas frustradas, a mulher entendeu por fim a que horas ele passeava a cadela e passou a ir a esse horário também.
Nas semanas seguintes, nem se atrevia a olhá-lo. Era só o que faltava e que o atrevido pensasse que ela estava interessada. Ao mesmo tempo, a sua cabeça e o seu coração fantasiavam com frases românticas, gelados a dois e flores no escritório.

Quando ele por fim falou com ela, ela fez-se cara e respondia-lhe em monossílabos.
Ele dizia que a cadela dele precisava de amigos e que a bicha parecia simpatizar muito com o cão dela. Ela acabou por concordar.
Já os cães, estes nem se cheiravam. O Tobias era um rafeiro, já cego e sem pêlo, que em tempos fora um bom ajudante de caçador. O Tobias era o filhos que ela nunca pôde ter e a única recordação viva que lhe restava dos pais já mortos.
Só aqueles dois poderiam imaginar um romance entre aqueles dois animais.

Conversa puxa conversa e os passeios alongaram-se, por vezes sentavam-se cinco minutos no banquinho de madeira descascada e falavam do tempo, sempre imprevisível ou do país, que ia sempre muito mal.
Um dia ela não se apareceu. Nem no seguinte.
Ele preocupou-se e, sem se dar conta, procurava-a.

Quando ela apareceu, ela explicou que tinha tido uma gripe e ficou de cama, mas que agora estava melhorzinha, com a graça de Deus. E isso era o que importava e que até já tinha ido trabalhar naquele dia, que o consultório do Dr. Antunes sem ela, ficava de pantanas.
Foi aí que ele respirou, ganhou coragem e lhe pediu o número. Ela imaginou os dois em Belém, a comer pastéis e a passear de mão dada, mas disse que não.
Ele falou do Tobias ("e se lhe volta a acontecer alguma coisa, quem passeia o Tobias?"). Ela não gostou de ver a solidão dela assim tão exposta e ele contra-argumentou de como a cadelinha ficara triste nesses dias de ausência, parecia até deprimida, nem comia a pobre. Foi, assim, que ela afagando a cadelinha, acabou por assentir e dar-lhe também o número do trabalho.

"Por que é que vais para aí? Ninguém vai para aí!"

15.12.14 | Maria vai com todos

Ouço isto desde que fui de Erasmus para a Turquia.
Mais tarde, fui para a Letónia estagiar e mesmo não tendo sido eu a escolher o destino (fui comprovar no mapa onde estava o país) e a pergunta perseguiu-me.
Também se manteve quando disse que ia a Laos. Ou ao Cambodja. Ouvia-a também quando fui para a Índia e até quando escolhi o Peru (o Peru, senhores) como destino.
Mais recentemente, foi como o Irão.



Assim sendo, aqui vão as respostas.
E é por isto que eu viajo:

Sinto-me francamente feliz enquanto viajo.
Não que eu seja alguém com tendências depressivas, bem pelo contrário; mas em viagem sinto-me sempre feliz - e sim, eu já chorei e até já desesperei em viagem. Eu, que adoro dormir, dou por mim super activa e cheia de energias para ir, fazer e acontecer.

Contrariar os outros I: pessoas.
"Ali é só pobreza!", "São só terroristas!", "Todos brutos!",...
Eu acredito que neste mundo há mais gente boa que má, porém dá-se mais visibilidade à maldade do que aos actos bondosos (basta abrir o jornal!). E sempre que viajo comprovo isso.
Comove-me encontrar pessoas boas, generosas e simpáticas. Pessoas dispostas a ajudar, a falar sobre elas, sobre o seu país e cultura. Gosto de poder contrariar alguém e dizer que "sim, eu sei. Lá, eles não são assim!".

Contrariar os outros II: clichés.
"Só comem arroz!", "Aquilo é muito violento!", "Está sempre nevoeiro!"
No meu país (onde nasci e onde moro) também há violência e roubos e violações e mortes e doenças. Sabe bem dizer que os polacos bebem algo mais do que vodka ou que no Peru se come bem mais do arroz (que saudades da comida Peruana!).
Viva arrasar clichés e estereótipos.

Ir para onde ninguém vai.
Isso, meus amigos, é um privilégio. Eu quero ir onde os outros vão, mas quero também ver o que poucos vêem. Gostei mais de Luang Prabang em Laos do que de Amesterdão na Holanda. Os "frescos" e a capela de Goreme, da Capadócia (na Turquia) conseguiram-me emocionar mais do que o Vaticano. Talin (capital da Estónia) dá dois a zero a Helsínquia, na Finlândia.

Viver Viver. Viver 
(ou experimentar, experimentar, experimentar).
Eu já comi tartaruga (nada de que me orgulhe), iogurte com feijão e milho (nojinho) e escorpiões (crunchy).
Já andei num elevador na selva (uau), usei um chador (&%"#), andei de cobertor a fazer de saia e dormi nas cozinhas de gente que não conhecia e até em conventos.
Sou melhor pessoa por causa disso? Não, não sou.
Mas saí da minha zona de conforto, experimentei e vivi. E são estas pequenas coisas que me motivam a planear a próxima viagem e que me ajudam muito a tirar o cu da cama todas as manhãs e a ir trabalhar. É bom saber que há todo um mundo, cheio de pessoas e 3824973498 mil experiências novas que ainda me esperam.

A certeza de que "o meu país não é melhor que o teu" (nem eu!).
Sair da zona de conforto é bom. Deixar as comparações de lado também - que "estranhos", "fazem tudo diferente!", etc. A nossa cultura/sociedade/país/etc. não é padrão para ninguém, apenas para nós mesmos. Comer pão e beber leite com café ao pequeno-almoço não é "o que toda a gente faz". E uma manga sabe diferente em Lisboa ou na Tailândia.
Quando viajamos e nos entregamos deixamos de lado expressões como "assim é que se faz" e tornamo-nos mais empáticos, mais livres e mais conscientes. Pessoas melhores(?).

A reforma.
Maldivas e outras que me aguardem: aos 65 anos aí estarei!


Lembro-me de uma vez ler um comentário no Facebook, sobre os cortes no programa Erasmus, em que alguém dizia que este programa era a única coisa que evitaria uma III Guerra Mundial na Europa.
Não sou tão extrema, mas acredito que se o Bush tivesse ido de mochila às costas, ao Iraque, jamais teria havido guerra - sou uma tontinha, eu sei!

Retaliando

15.12.14 | Maria vai com todos
Barcelona, Espanha


Ali no dia 5 de dezembro, entre uma bolacha e um  chá, eu escrevi sobre coisas que queria comprovar em Barcelona, uma vez que após onze anos, voltaria a visitá-la.


Alguém fofinho respondeu:
(parece que alguém lê isto, afinal)
como portuguesa há oito anos na cidade condal
1. acontece-me muitas vezes, mas nem sempre.
2. alguns sim. outros da boca para fora. muitos não.
3. catalão é: imagina que tens uma panela, atiras lá para dentro um pouco de castelhano, um pouco de francês, um pouco de italiano, um pouco de português, uns pózinhos mágicos, tapas, agitas tudo muito bem e já está1
4. barcelona tem a praia - mesmo que horrorosa, no inverno cheira a mar - tem mar e montanha, tem bom tempo. madrid tem movida e uma data de coisas que ainda tenho que descobrir!
5. definitivamente os catalães NÃO são mais giros.
6. depdende com quem falas.
7. nahhhhhhhhh. e os catalães?
8. sempre que possível (eu incluída!)

eh eh eh eh eh eh eh

E agora eu retalio (jejeje - como manda o latim local)

1. Fora o "merci" e o "adieu", castelhano rules.
2. Só vi gente a querer separar-se da turistada. Ele eram bandeiras bairristas; ele eram cartazes e faixas a mandar os turistas dar uma curva;...
3. O catalão é português com erros ortográficos ;) Muitos erros!
4. Não sei. Não sei.
(a minha fidelidade a Madrid impede-me de responder)
Não sei. Não sei.
5. Os catalães não são giros. Nem os machos.
6. Ponham-nos (todos) (e à séria) a votar e logo falamos.
7. Naaaaaa... Barcelona fecha aos feriados e domingos e depois das 23h00 não há restaurantes abertos. Ninguém (depois de viver em Madrid) estaria pronto para viver nestas condições (precárias).
8. Bah. Andam. E sem risco de atropelamento. E sem subidas. Barcelona 5 - Madrid 0

Madrid me mata ou coisas de e/imigrante

10.12.14 | Maria vai com todos

Estava eu na sala de espera, a desfolhar uma revista (a Vogue ou a Elle ou algo assim, versão espanhola), quando começo a ler uma entrevista feita à Angelina Jolie, sobre o seu próximo filme, enquanto realizadora.

Ela explica que o argumento já existia pelas gavetas de Hollywood há muito tempo e que ninguém lhe pegava e que inclusive quando ela chegou a casa e demonstrou ao seu (de todas nós) Brad, interesse em realizar o dito filme, ele tentou dissuadi-la, começando por dizer qualquer coisa como: "Mi cielo...". Lindo!





Coisas para comprovar em Barcelona durante este fim-de-semana

05.12.14 | Maria vai com todos

1. Se falar em castelhano, responde-me em catalão?
2. Querem-se mesmo separar?
3. O catalão é tipo português misturado com francês?
4. É Barcelona melhor do que Madrid?
5. Os catalães (machos) são mais giros?
6. Aquela gente quer mesmo ser independente?
7. Madrid com praia seria Barcelona?
8. Andam todos de bicicleta em Barcelona?

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