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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens.

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O ISIS também me está a matar

16.09.14 | Maria vai com todos

Eu nunca fui ao Iraque, nem à Síria - o para este texto não faz diferença.
Eu não conheço a Umm, nem quando esteve de férias em Portugal e muito menos quando se chamava Ângela. Também não conheço a escocesa Aqsa.
Também não nenhuma das outras, que aos 19 e poucos anos, voluntariamente viajaram para a Síria ou para o Iraque, para se casarem e servirem a jihad. Sim, porque não basta juntarem-se à malta. Elas têm que casar-se. Afinal, sem marido como esperam ser protegidas? Como podem sair de casa? Ir às compras ou trabalhar? Ups, que ingénua, elas trabalham em casa, são as Community Managers da jihad. É ali entre o varrer o bunker e preparar os hambúrgueres com ketchup e uma Pepsi (afinal isto de combater a obscenidade e conquistar um estado dá sede), que elas se dedicam a publicar fotos de cabeças decapitadas ("Adivinhe quem veio para jantar?") entre emoticons de sorrisos, corações e piscadelas de olhos. Um carinho!

Elas que estudaram nas melhores escolas (dizem as famílias) ou frequentaram a escolaridade obrigatória ou pelo menos tiveram essa oportunidade. As famílias desiludidas tentam entender o que se passou. Elas foram acarinhadas, vestiam saias curtas, tinham amigos e  namorados.
Mas isso agora não importa, nem para elas. O que importa é que agora, elas são umas guerreiras e apoiam os valentes e honrados guerreiros do ISIS. Adeus cavaleiros do Rei Artur, olá jihadistas de negro!

Nas redes sociais, elas tiram selfies de niqab negro e com as amigas (qual delas a mais gira!), com o dedo indicador a apontar para o céu.
Elas partilham fotos de gatinhos; tiram fotos ao interior das malas - "querem saber o que está dentro da mala de uma senhora?" perguntam, exibindo uma arma! Ah ah ah, que engraçadas, morooro de riso. O quê? O calibre? O modelo? Pfff, não faço a mínima ideia. As miúdas têm uma arma e comem Nutela. Porra, o ISIS é mesmo fixe.

"Os media criam a ideia de que se vive no meio de uma guerra, mas não é tão inseguro como dizem. É verdade que às vezes cai uma bomba, mas não se sente medo. E se a bomba tiver escrito o nosso nome, tornamo-nos mártires, Insha'Allah". (excerto retirado do Expresso, ver mais abaixo)
Epa! Isso é melhor do que ganhar o Preço Certo. Sorte mesmo é se essa bomba matar para cima de dez civis. E se forem meninas entre os 12 e os 16 anos, ainda melhor, pois isso até dá direito a comer um frango com Maomé no Paraíso. Num plano mais térreo, ganham o nome numa rua bombardeada, no norte da Síria.
Todavia, os maridos (abençoados!) sabem sempre quando cai uma bomba, ou seja, elas estão bem. Elas estão bem!

Pela primeira vez, dou por mim a ansiar por um milagre e que Alá e Maomé voltem à Terra, só para dar umas belas palmadas no rabo destas meninas, ensinando-lhes a respeitar os outros, sem guerras, sem ódios e sem fundamentalismos parvos.
Podia ser que esses dois lhes conseguissem explicar (a elas e aos outros) que ambos se estão nas tintas para um califado islâmico, (eles nem vivem cá!), e que essa coisa da sharia, a suposta lei com base no Corão, não foi escrita, nem ditada por nenhum deles. E que também aquelas decapitações à Seven, de David Fincher ou as violações de adolescentes constam no guião.
@Alá e @Maomé: acham que podem fazer isto? É só meia hora do vosso dia, depois podem voltar ao Paraíso e ir jogar dominó com Buda, Jesus e Shiva. Agradecida.


Uma das coisas mais me frustra nestes jovens, já que infelizmente não se tratam só de mulheres, é que me arruinaram o sonho, transformando-o numa utopia.
Eu sei que há muitos loucos no mundo, porém eu sempre acreditei que a educação era a chave para tudo. Eu acreditava que num mundo educado e instruído, estas coisas não poderiam passar, pois o preconceito e fundamentalismo são frutos da ignorância e pobreza do espírito.
Acreditem ou não, mas o ISIS matou parte de mim.



A Polónia da União Europeia

03.09.14 | Maria vai com todos
Muzeum Powstania Warszawskiego, Varsóvia, Polónia

Mais uma manhã .
Acordar, levantar e ir à casa de banho. Um café com leite e uma torrada com manteiga. O gato sempre atrás dele. Depois de se vestir e de se pentear, procurava as chaves, a carteira e saía de casa, em direcção ao museu.
Varsóvia também estava igual a todos os outros dias de Janeiro. Cinzenta, com neve, edifícios gigantescos, com gigantes e coloridos neon's, para lembrar a todos os que ali viviam, que há muitos anos que fazem parte da União Europeia.
Saiu do tram e em poucos passos, já estava no museu a conferir os grupos daquele dia: uns alunos de uma escola polaca entre os 13 e os 15 anos, mas tarde um casal belga e depois do almoço, um grupo de polacos reformados e ainda quatro franceses. Apesar de estar há um ano a aprender francês, a visita seria em inglês. Além de inglês e polaco, ele também falava fluentemente alemão.
Há 10 anos que trabalhava como guia no Muzeum Powstania Warszawskiego. Todos os dias falava sobre os horrores da II Guerra Mundial vividos pelos polacos em Varsóvia e em toda a Polónia.

Ele acreditava ter uma missão e por isso, aos visitantes polacos sempre falava da resistência com orgulho. A fome. A pobreza. O centro de Varsóvia reconstruído pelos próprios polacos, que usaram os destroços dos bombardeamentos nesta empreitada. Sempre que ele dizia coisas como "nós"ou "resistência" ou "liberdade", ele levava a mão ao peito, fazendo um olhar solene.
Aos mais jovens, fazia sempre questão de referir a morte do seu avô nas trincheiras ou dos seus tios-avós, depois de uma bomba alemã na capital.
Aos alemães fazia questão de recordar os números. Os números dos mortos. Os números dos feridos. Os números dos presos. Ou das crianças órfãs. Falava também dos números de bombardeamentos e dos campos construídos na sua Polónia. Não culpava estes jovens cultos do sucedido, mas não podia deixar que eles se esquecessem e por isso, sempre usava a primeira pessoa do plural nas suas descrições.
Já aos franceses, ele nunca os deixava esquecer o Governo de Vichy.
E a eles, assim como os ingleses, sempre lhes lembrava como depois de colaborarem "sem descanso e dedicadamente" com os Aliados, a Polónia foi abandonada e deixada à mercê da Rússia de Estaline - mais morte, mais miséria, mais tristeza. "Não merecíamos!" sempre dizia num tom trágico.
Eram poucos os russos que passavam por ali e a esses nem valia a pena contar nada, pois jamais entenderiam a grandeza polaca, fruto de toda morte e tristeza daquele povo.

Ao final do dia, sempre saía do museu confiante de ter concluído a sua missão e que apesar de desconcertados pelo seu bom humor, os visitantes ficavam tocados pelo sofrimento polaco durante e depois da II Guerra Mundial. Era impossível não admirar a força dos polacos e a sua capacidade de se (re)erguer.
A prova disso eram os muitos olhos emocionados, que acompanhavam sem interromper os seus relatos apaixonados ou aqueles que fechavam os olhos perante fotografias cruéis ("não posso ver isto", diziam). Havia também aqueles que olhavam, como que hipnotizados pela crueza da imagem. Os mais sensíveis despediam-se com um abraço (e/ou uma generosa gorjeta).
Era bom no que fazia e sabia-o. Emocionava os corações mais duros e sussurrava à humanidade de cada um, mas sobretudo, falava-lhes dos polacos.
É verdade que podiam não se destacar na literatura ou com grandes músicos, "nem no futebol somos tão bons" gracejava ele, mas nunca na História um povo foi tão capaz de resistir como eles.

Era por isso que no final do dia, sempre saía do museu satisfeito.
Olhava para aquela construção bonita e de linhas modernas e sentia-se orgulhoso. "Nenhum outro país seria capaz de algo assim", pensava ele enquanto voltava a casa., recordando as memórias da família judia, de um dos alunos polacos ou as lágrimas da senhora belga de 50 anos. Ou dos velhos polacos daquela tarde, que buscavam rostos conhecidos nas fotos das ruas de antigamente ou dos 20 euros de gorjeta dos quatro franceses. Dinheiro, que sempre dizia não poder aceitar, mas que sempre acabava no seu bolso.

Já no seu bairro, velho e sem luz, comprava pão e leite fresco.
Em casa, acariciava o gato e colocava os velhos chinelos. Depois, ligava à TV. Em poucos minutos passaria na televisão um documentário sobre a vida secreta de Hitler, que ele não podia perder.