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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

#ViajoSola

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Marina Menegazzo e Maria José Coni

 

 

Só recentemente li a historia sobre as duas argentinas que viajavam pela América Latina, quando no Equador, foram agredidas, violadas, assassinadas, acabando o corpo de ambas num saco plástico.

 

Como viajante, não tenho palavras para descrever o horror que senti ao ler isto. E a tristeza. Pior ainda, fui ler alguns dos comentários que se produziram depois, que mostram, mais do que nada, uma falta de respeito às vítimas!

 

1. Elas eram duas. Elas não viajavam sozinhas. Ninguém viaja "sozinhas", uma mais um faz dois, logo é plural, não singular.

 

2. E mesmo que uma delas estivesse sozinha. Sim, há quem viaje sozinha e isso é bom! Não se é mal amado, não é sinal de falta de amigos ou família ou de se ser má pessoa. E mesmo alguém que seja tudo isto (e pior!), nada justifica um crime desta (ou de qualquer outra) natureza. Que fique claro, quem são as vítimas e quem são os criminosos.

 

3. Será que ter um homem com elas mudava algo? Acha que sim? Acha que não?
Seja qual for a resposta, vamos lá reflectir um bocadinho sobre isso, porque seja qual for a respostas não há uma que seja correra e ambas obrigam-nos a uma reflexão profunda. Ter um homem ao lado, impede mesmo a violência de género? Sabemos que não ou nem sempre. Na Índia, o amigo de Jyoti Singh foi também agredido e demorou dois meses a recuperar. A violência foi tão grande contra esta mulher, que os intestinos saíram do lugar - aconselho vivamente o documentário India's Daughter!

 

4. Como assim "com aquelas roupas estavam a pedi-las"?! Há mesmo roupa, seja um homem ou mulher, que estejam a pedir o que quer que seja? Quer isso dizer, que se eu vestir umas calças de cintura subida que estou a pedir um gelado? E já agora, no Equador em pleno verão, é suposto vestir-se o quê? Um casaquinho polar?

 

5. Obviamente que também li algures o "a culpa é dos pais"! Obviamente, a milhas de distância na Argentina, com certeza que foram eles a maltratar, violar e assassinar as próprias filhas. Filhas essas, que são duas mulheres adultas com vontade própria.

 

6. A ideia de que se "puseram a jeito", seja porque deveriam ter ficado em casa, na "segurança do lar" ou por qualquer outra coisa, deixa-me com nervoso miudinho. Vamos colocar homens, mulheres e crianças em casa, bem fechadinhos, para evitar crimes desta natureza. Melhor mesmo é nem sair porta fora.
Pior ainda é esta ideia de que a "culpa" é da vontade de viajar destas mulheres - tivessem elas ficado em casa sossegadinhas! Raios! Ir ao Equador é como estar em Lisboa e ter vontade de ir a Paris, isto é, elas não foram para uma zona de conflito, nem para um país onde as mulheres não possam votar! Foi no Equador e possivelmente poderia ter sido na Argentina ou no Brasil ou em Portugal! Não, este não é algo que só poderia ter acontecido na América Latina, vamos ser todos mais honestos (e inteligentes) que isso! 

 

A verdadeira reflexão que está a fazer falta é sobre os criminosos! O que levou aqueles homens a acharem que podiam forçar qualquer tipo de relação com duas mulheres? A não aceitarem um "não", a insistirem? A abusarem, violarem e matarem? Vamos aprender a questionar quem pratica o crime, em vez de agredir (uma e outra vez) as vítimas, sobretudo quando já nem cá estão para se defenderem!