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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Todos sentem muito a falta dela

Rita

A Rita foi viver numa casa onde poucos gostavam de gatos.
O avô torcia o nariz aos bichos.
A avó sempre declarou preferir os cães.
Uma filha era alérgica.
Já a outra filha, ela sempre recusou à sua filha um animal de quatro peixes ("muito trabalho", "responsabilidade!" e "as férias?").
O pai sempre dizia "Eu não quero cá bichos!"
A neta mais velha ficava (aliás, ainda hoje fica) nervosa com gatos.
A mais nova antes, e tal como agora, não lhes toca.

Mesmo assim, a Rita entrou lá em casa.
Uma gata pequenina, de olhos claros, que brincava com todos e trepava pela toalha. Ela foi lá para casa, para ajudar a neta mais nova a perder o medo dos animais - sem resultados.
Passados onze anos e a Rita morreu.
Todos sentem muito a falta dela.

O avô só fechava arrecadação depois da gata já estar aninhada na roupa para lavar - mesmo que isso implicasse ir duas ou três vezes à rua, durante a noite, para confirmar que ela já dormia.
A avó deixava-lhe leitinho aquecido pela manhã e tirava-lhe as espinhas ao peixe - "coitadinha, pode engasgar-se".
A filha alérgica olhava a gata nos olhos, cada vez que falava com a Rita.
A outra filha comprava-lhe e dava.lhe a pílula, metida num bom e gordo troço de queijo.
O pai era quem mais lhe dava comida - a Rita era gorda. E quando a gata chegava à sala, miava junto ao sofá e o pai chegava-se um pouco para a esquerda, para a gata se sentar, entre ele e o braço do sofá.
Quando a neta mais velha estava, a gata deitava-se ao colo dela. Se eram só as duas deitadas no sofá, então, era ainda melhor. Aí, a Rita esticava-se na barriga dela e as duas ficavam assim frente à televisão.  Quando a neta mais velha não estava em casa, a Rita dormia a sesta dentro da guarda-roupa dela.
A neta mais nova, nunca acarinhou a Rita, tocava-lhe só com a pontinha dos dedos, mas muito orgulhosa do seu feito. Todavia, até ela aprendeu a deixar a gata entrar em casa ou a dar-lhe prioridade na hora de escolher o cadeirão onde se sentar.

A Rita morreu e todos sentem muito a falta dela.