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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Sozinha, mas pura. Sempre!

 

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Ela nunca tinha saído ali da aldeia. Bem, às vezes ia até à cidade para ir ao hospital, mas era ir e vir, que aquilo fazia-lhe muita confusão. Até lhe fazia mal a cabeça! Não, ali na sua casinha é que ela estava bem. Sossegadinha! E sem dar confianças a uns e a outros! Não podia confiar em ninguém! Nem nas vizinhas! Ela bem sabia que a Aninha à frente era uma coisa e atrás era outra! Sempre tivera a língua afiada, aquela mulher! E a Graça, sempre de manga arregaçada e boca arreganhada! A dar confiança a todos os que passam. Aquela mulher!
Tinham tocado à porta. "Venha à festa, mulher!" Qual festa? Era só o que lhe faltava agora, anda por aí, com uns e outros! E ela lá tinha idade para isso!
E mesmo que tivesse, o que importava? Ela bem se lembrava dos bailaricos de antes. Eles e elas a fazerem-se de inocentes, mas só mesmo um ceguinho é que não via aquelas trocas de olhares e roças e roças! Uma vergonha! Aquilo não era ambiente para ela.
"Os bailaricos são a ruína" dizia ela muitas vezes. A primeira vez que foi a um, foi quase arrastada pela Teresinha, como se daquela gaiata saísse alguma coisa de bom! Sempre fora uma cabeça de vento, a Teresinha! Mal chegaram ao baile, ela bem que a queria pôr a dançar, onde já se vira? Cruzou os braços e encostou-se à parede. "Deus Nosso Senhor ajude esta gente" era tudo o que pensava. Foi quando o Manel da Virgínia se chegou junto dela. Matreiro. Cheio de falinhas mansas. "Não danças?" insistia o manhoso. Sempre fora muito descarado! Ela bem sentiu aquilo no meio das pernas dele, a roçar na anca dela. Que atrevido. E insistiu. Institiu! Mas ela manteve-se hirta, como uma mulher séria. Uma pura. Embora não entendesse aqueles calores que sentia. Estaria doente? Não ia dar parte fraca. ALi ficou, hirta.
No dia seguinte, acordou com uma chapada do pai! A ordinarona da Laureana contara a todos que a tinha visto com o Manel. Diziam que os dois tinham rolado na palha! "Como os cabritos" berrava-lhe o pais aos ouvidos! Ela? Ela? Seria um sonho? Ela bem tentou explicar tudo ao pai, de lágrimas nos olhos, enquanto este a açoitava. Que desilusão! Mas ela não tinha feito nada, só tinha ficado ali. Como se o pai acreditasse! Envelheceu e morreu sem voltar a dizer a palavra "filha".
Mais de sessenta anos tinham passado, mas ela tinha aprendido a lição. Aquilo não era sítio para ela. Na opinião dela, se lhe perguntassem, não era sítio para ninguém! Mas as outras que fossem, que fossem e andassem por lá metidas com uns e outras. Ela dali não saia. Era só o que lhe faltava! Sozinha, mas pura. Sempre!