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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Será que há livros que nos podem fazer mal?

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Este fim de semana li um artigo do Público que me ficou a fazer eco na cabeça. O artigo intitulava-se "Há livros que nos podem fazer mal?". O mote era a incitativa levada a cabo por uns estudantes universitários, que em prol do perigo ao bem-estar de alguns conteúdos, defendiam que os leitores deveriam ser protegidos.

O artigo do Público escrito por Isabel Lucas, debruçava-se sobretudo em encontrar reacções à notícia. Não só de agora ou de especialistas, mas também ao longo da história. Todos sabemos que desde sempre existiram livros proibidos. A Inquisição criou o seu Index e ainda mais recentemente, Hitler proibida livros escritos por autores judeus ou, nos anos 80, o Irão lançava uma fatwa contra Salman Rushdie, por escrever os Os Versículos Satânicos, onde profeta Maomé. Diz-se também que ainda hoje, o Vaticano esconde livros, entre eles um suposto Evangelho Segundo Maria Madalena.

Seja por razões políticas ou religiosas, na hora de censurar, os livros sempre foram um alvo.
No caso dos estudantes universitários, um dos exemplos citados, era o dos alunos de Harvard, que pediam para não ser ensinada a lei sobre a violação. Razão? Um(a) aluno(a) que tivesse passado por uma situação idêntica, poderia sentir-se perturbado. Oi? Como? Advogados a não aprenderem leis por susceptibilidade? Em nome do "politicamente correcto"?

Sim, do politicamente correcto, pois afinal, é disso que estamos a falar! Estamos a caminhar para um ponto, em que tudo é susceptível. Tudo pode ser ofensivo ou cruel. O que mais me intriga é o caminho que escolhemos para responder a isto! Em vez de nos querermos tornar mais fortes, mais iliterados, mais responsáveis e capazes de nos defender; não, fazemos o oposto! Sugerimos esconder. Não falar. Ignorar. Passar à frente!

 

Recentemente, o Mein Kampf  publicado nos anos 20, por Hitler, voltou às prateleiras das livrarias alemãs - antes estava interditado por razões autorais. Foi o drama e o horror! Não estaremos a dar aos jovens material para contribuir para uma cultura racista, xenófoba, preconceituosa? A Ministra da Educação alemã sugeriu inserir o livro no programa escolar, defendendo, que desta forma, os alunos seriam acompanhados pelos professores enquanto liam o livro - como se não fosse fácil lê-lo na Internet! Novas vozes, novos protestos! As mentes podem ser corrompidas pelo livro, já "aconteceu antes" avisam alguns.

 

O artigo do público dá outro exemplo, como livros centrados em temáticas como a depressão. Como serão esses livros recebidos? Será que são perigosos? Há quem defenda que livros como Mrs Dalloway, de Virginia Woolf podem conduzir ao suicido. Mesmo?

 

Eu não tenho as respostas. Eu sou uma extrema no que toca á liberdade de expressão. Não acredito em limites. Acho que se pode dizer tudo. Depois, há que lidar com as consequências - queixas, ofendidos, etc. A vida é assim: acção, reacção!

No dia em que assim não for, em que existirem limites, supõe-se que existirá algo ou alguém responsável por definir as barreiras. E como vai ser? Quem os coloca? Onde começam e onde acabam? Piadinhas sobre futebol sim, mas sobre a Igreja, não? Mas se eu sou ateu, que mais me dá? Por que é que não posso fazer piadas sobre cancro, se eu tenho cancro ou sei fazer uma piada engraçada?
Tudo isto é demasiado pessoal. Não se pode generalizar ou espero que alguém "nos proteja" do mundo, da vida e muito menos das palavras. Podemos rir, não achar graça, contra-argumentar, revoltarmo-nos... e podemos fazê-lo, porque temos liberdade para tal.

Os livros ajudam-nos a pensar, a explorar ideias, a descobrir argumentos, a definir os nossos "não gosto", a (re)viver vidas e sentimentos novos. Mais, ajudam-nos a nos expressar e a identificar sentimentos. Virginia Woolf ensinou-me aos 16 anos, a ter empatia por quem sofre de depressão. E eu vou-lhe estar sempre grata por isso. Christian F. assustou-me tanto com a heroína, que ler os Filhos da Droga, fez mais do que as 76 mil campanhas dos anos 90, com seringas e imagens do Casal Ventoso. Pessoa ensinou-me que é normal ser plural. Com Saramago, descobri um Jesus mais humano e misericordioso, do que aquele que alguma vez me apresentarem na catequese. E com Orwel aprendi o valor do pensamento. E, claro, Amado, Mia Couto, Machado de Assis e Água Lusa ensinaram-me mais sobre a magia da língua portuguesa, do que qualquer professor de Português foi capaz de me ensinar - e eu tive professoras muito boas, note-se!

 

Ter liberdade para escolher os nossos livros é do melhor que há! Sim, porque eu não admito que me digam o que tenho de ler ou não - já me bastou na escola ter que ler o Castelo Branco (sim, eu não gosto do Camilo e vivo bem com isso!).

Além disso, vivemos num mundo, por si só, já bastante assustador. Todos os dias chegam notícias de pessoas com acesso à educação e a um mundo supostamente livre, que optam por se transformar em assassinos e em terroristas de livre vontade. E parece que para já, para isto, o mundo continua sem ter protecção.