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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Ser artista em Udaipur, Rajastão, Índia

Casamento em Udaipur, Índia
 

Ele era giro, giro, giro!
Ele convidou-as a entrar no atelier dele e foi à rua buscar três chás - dois deles "no sugar, no milk". Não que entendesse aquele pedido, mas também não discutiu com as possíveis comparadoras.
Lá dentro e com o chá entre as mãos, começou a falar dele, apesar de ninguém perguntar. Ele vinha do norte da Índia, do Rajastão, de uma pequena aldeia e há dez anos que vivia na cidade dos palácios indianos: Udaipur.

O Rajastão, no norte da Índia é uma das mais bonitas regiões do país, com as suas imponentes montanhas e belos palácios. As duas cidades mais conhecidas são Jaipur, a "cidade vermelha" e Udaipur, por vezes conhecida pela cidade de Aladino, devido aos seus românticos palácios.
Nijar deve ter cerca de 30 anos e deixou a sua aldeia quando tinha cerca de 16 anos e nunca mais voltou. Não sabe nada da sua extensa família, apesar de enviar dinheiro, mas segundo ele, ele nunca mais poderá voltar.
O Rajastão é uma das mais conservadoras regiões da Índia, onde o sistema de castas, apesar de ter sido abolido pelo Governo, é ainda muito forte. Aquando a independência da Índia, começou uma forte guerra religiosa entre cristãos, hindus e muçulmanos - sobretudo estes dois. É no Rajastão que vive o maior grupo de muçulmanos na Índia.
Os postais de elefantes, de mulheres de grandes argolas e brincos a unir as orelhas ao nariz e de garridos saris? Pois bem, bem-vindos ao Rajastão.
Niraj não foi à escola e nenhum dos irmãos nunca foi à escola. Os pais são agricultores, assim como foram os avós, os bisavós, os tetravós e sempre foi assim, desde que há memória da família. Segundo ele, a terra da família é fértil e boa, mas o dízimo? O aluguer? A quota? que pagam a uma outra família, deixa muito pouco para a grande família do Niraj.
"Mas por que é que lhes pagam se são vocês que cultivam? O terreno é deles? perguntou uma das raparigas. "Há um contrato?" continuou. Ele não sabe, da mesma forma que os pais não sabem, nem os avós sabiam ou os bisavós ou tetravós. Sempre foi assim e não há porque questionar isso.
Quando os pais detectaram que havia nele algo diferente, deram-lhe algum dinheiro e mandaram-no para Udaipur. A mãe fez uma grande comida e reuniu toda a família para se despedirem. Niraj sabia que não poderia voltar nunca mais. Era uma questão de honra.
Quando chegou a Udaipur, Niraj dormiu na rua e quando ficou sem dinheiro roubou.
Ele explicou às raparigas, que os indianos podem ser muito hospitaleiros, mas com os estrangeiros e ele não era dali. Era um estranho. Ainda hoje, com um negócio estabelecido e reconhecido ele continuava a ser um estranho. As pessoas eram mais simpáticas, mas Niraj sabia que havia coisas que lhe estavam vedadas, como casar ou ter família.
- "Mas tu também és do Rajastão" - disse uma.
- "Mas não sou de Udaipur" - respondeu ele.
- "Mas ninguém precisa saber que não és daqui. Udaipur é tão grande, por que não dizes que não és daqui?"- parecia tudo tão lógico para a rapariga.
- "Mas eu sei que não sou daqui" - determinou ele.

Pintura: mulheres do Rajastão, em Udaipur


Por fim, o menino perdido conseguiu um trabalho num atelier de pintura, de um artista que era também de outra cidade. Outro rapaz trabalhava lá e tal como ele, também revelava um talento inexplicável para as artes.
Os dois aprenderam com o Mestre as técnicas de pintura; o uso das tintas; a conjugar as cores fortes da região; estudaram os símbolos e os mitos, como os elefantes e os cavalos e durante anos, todos os dias, iam repetindo as mesmas histórias aos turistas estrangeiros que passavam por ali. Levavam-nos à loja e bebiam chá, enquanto falavam e falavam e falavam.
Foi assim que aprendeu inglês. Sabe também francês e um pouco de russo. Porém, ainda hoje não sabe escrever e não sabe mais nada sobre a família.