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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Resposta ao Senhor Arrumadinho sobre a Panna Cotta com Nutella

Senhor Arrumadinho,

 

já cheguei tarde ao seu texto, mas não pude deixar de lhe responder. É que este seu texto reflecte uma parte, infinitamente divertida, da minha relação e questões domésticas.

 

"Por achar esta combinação perfeita, sempre que vou a um italiano faço o mesmo filme. Chega a hora da sobremesa e lá faço as três perguntas: 1) Tem Nutella? (invariavelmente a resposta é "sim"); 2) Tem panna cotta? (invariavelmente a resposta é "sim"); 3. Então queria saber se é possível trazer uma panna cotta mas sem molho e só com Nutella por cima (invariavelmente a resposta é "vou perguntar a ver se é possível)."

 

Quando cheguei a esta parte, dei por mim a rir e muito. Imaginei logo o Chef do dito restaurante, obviamente um senhor Italiano na minha cabeça, a levar a mão ao peito e a fazer uma cara de escandalizado e dor, muita dor!

Passo-lhe a explicar - e quem sabe consiga explicar também a recusa dos vários restaurantes.
Vivo e namoro com um Italiano e ele, assim como a maioria (ou todos!) os meus amigos Italianos têm uma relação dogmática com a gastronomia do seu país. Algo, que admito, me diverte muito, muito, muito!
Para que tenha uma ideia, ainda ontem, enquanto me ria por dentro, comentava este texto lá em casa. Vi logo o sobrolho do meu namorado em guarda, assim que ouviu "Lisboa" e "restaurante italiano". E quando ouviu as palavras "panna cotta" e "Nutella" na mesma frase, o pobre do sobrolho, gritava!

Desde que vivemos juntos que só como massa Barilla. Aquelas massas de marca branca o não italianas foram completamente banidas.
Se as instruções dizem oito minutos de cozedura, então são oito minutos. Se diz onze, seja, onze minutos. Porquê? É assim. Cada massa tem as suas características. Está na caixa e há regras.
Nada de água fria ou azeite. Massa feita, massa no prato e comer!
No início da nossa relação, quando íamos às compras, ele ia sempre confirmar se tinha comprado polpa de tomate e não tomate frito. E queijo na massa só parmesão - e dos bons.
Adoro risotto e quando uma amiga Napolitana me ensinou a fazê-lo, tornou-se no meu prato de eleição para as visitas. Todos gostavam e falavam bem. Pouco depois de começarmos a sair, eu (toda exibida) fiz-lhe um risotto. Durante a preparação, viu que eu não usava qualquer ingrediente, pois, temos pena, mas aquilo já não era risotto. Oi? Como não? Foi uma italiana que me ensinou e tudo! Mas não, ou eu estava a fazer mal ou aquilo era outra coisa, uma coisa de Nápoles, mas risotto não era aquilo, pois faltava X.
Vivemos dois anos em Madrid e nesses dois anos, apenas íamos a dois restaurantes italianos. O critério? Se faziam a "carbonara" com ovo ou com natas.
A pizza também não se divide. Cada um come a sua!
Sempre que cozinho, digo-lhe vou fazer massa com X, Y e Z. Nem me atrevo a dizer que é o prato A ou B, porque Deus Nosso Senhor das Massas me ajude, se não coloco um ingrediente ou faço alguma coisa diferente da receita original. Obvio que come, óbvio que é bom (não me safo nada mal, verdade seja dita), mas já não seria a receita A. Seria outra coisa.
Outra lição importante é: para cada prato um tipo de massa. Ragú, vulgo bolonhesa, com esparguete não faz sentido. Este ponto, admito, ainda não apanhei muito bem!
Quando a minha mãe nos visita, está proibidíssima de fazer massa.

Eu compreendo perfeitamente o que o Arrumadinho diz! É o que digo muitas vezes ao "meu" italiano. Se eu quero e eu posso (e se sou cliente), por que raio é que não posso? Se eu quero colocar queijo na minha massa com gambas, eu ponho. É minha! E lá vem a resposta, "isso não se faz!"
O mais divertido é quando tenta fazer paralelismos semelhantes com a comida Portuguesa. "È como se em Portugal,..." Nós? As almas com mais de 365 pratos de bacalhau?

Para um italiano ou alguém que siga a escola Italiana, colocar Nutella na Panna cotta é violar a receita. Com Nutella, já não seria Panna cotta. Veja, nem mesmo os grandes chefes da gastronomia Italiana da actualidade se atrevem a tocar nas receitas da "mamma"! Podem criar novas, inovar na forma de as apresentar, apostaram em ingredientes de maior qualidade, etc. Porém, nenhum altera a receita original. E se o faz, o nome muda. É criar algo novo. 
Na minha opinião, a gastronomia Italiana é das mais regradas do mundo. Há até convenções sobre quando se pode ou não beber um capuccino - tente em Itália pedir um depois da refeição. Até lho podem trazer, mas de certeza que antes o Santinho dos Cappuccinos caiu do altar!

Da minha parte, acho que a Panna cotta com Nutella tem bastante potencial, registe já a patente e a receita, antes que chegue um Italiano, lhe dê um outro nome e lhe roube a ideia