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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Quando EU viajei em Primeira Classe

Primeiro, vamos lá ver uma coisa: eu viajei em Primeira Classe, não foi em Executiva, nem estava com os copos. Eu já viajei MESMO em Primeira Classe. Agora que estamos devidamente esclarecidos, fica o testemunho (comovente) na primeira pessoa.

Obviamente que não comprei o bilhete! Tivesse eu dinheiro para essas coisas e era uma pessoa (mais) feliz. Tive foi a sorte de viajar com a Emirates e ter direito a um upgrade de classe. Isto é a prova de que onde há fumo há fogo ou que há mitos urbanos com fundo de verdade. Também é verdade que isto já aconteceu há uns quatro anos, quando a Emirates estava a entrar no mercado Europeu, cheia de opções de voos baratos e era do mais fofa que há - mesmo assim, ainda hoje, bate forte cá dentro!

 

Depois de umas férias pelo sudeste asiático, tinha eu o voo de regresso de Banguecoque para Madrid, com escala no Dubai. Quando em Banguecoque, fiz o check in, a senhora disse-me:

- Oh menina, não quer apanhar o voo seguinte para o Dubai, ka-gente passa-a para a Primeira Classe? - isto assim, em letras grandes e em inglês.
Eu que além de cega, sou surda, achei que tinha ouvido mal, mas disse que sim, que sim senhora. Era tão simpática a moça e, na verdade, esperar mais umas horas na Tailândia ou no Dubai, dava-me igual ao litro. 

 

 

Chegada à fila... bem, qual fila?! Aquilo foi sempre a andar! Literalmente, foi ver-me passar! Por uma porta exclusiva, claro está, de onde nem se vê a plebe! Eu suada e suja, de chinelo no dedo, a ver a Executiva para trás e a acompanhar os grandes xeques deste mundo.
Chegada ao avião, champanhe? Ora pois, claro que sim! E umas entradinhas de caviar, que caíram que nem ginjas.
Sentei-me, num lugar individual e quase tão espaçoso como a casa-de-banho de uma casa que tive em Madrid. De pernas esticadas e refastelada na minha poltrona, estava eu entretida a abrir a bolsinha e individual (com creme para as mães Carolina Herrera, creme para cara da Armani, desmaquilhante Channel, etc.), quando chega a fofa da hospedeira, sorri e diz:
- Poderia levantar-se, por favor!
"Pronto!" pensei eu "Acabou-se! Descubriu-me! Já sabe que eu não pertenço aqui! Vai-me já mandar para a turística!" E eu, que já me estava a habituar à manta fofinha e à almofada suave, achei que devia dar luta e questionar:
- Ppppppppporquê? - perguntei eu, a medo.
- Para lhe fazer a cama - respondeu-me a lindona da Emirates
Oi? Como? Fazer-me a cama? A mim? No avião? Ai-jazus! Ela quer-me fazer a cama? E, sim, lá estavam os lençóis cheirosos, nas mãos dela. Intimidade e cheia de agradecimentos, disse-lhe que não. Achei que já era demais e um pouco de humildade cai sempre bem.

 

 

Eu que me ajeito a dormir em todo o lado, seja no chão da cozinha, a passar por terrenos esburacados, em barcos ou num tuk-tuk, fiz questão de não pregar olho naquele voo... de Primeira Classe... da Emirates. Vi filmes, num écran maior do que o do meu portátil; bebi vinho do Porto; comi salmão com caviar e bebi suminho de laranja natural ao pequeno-almoço. Comi num avião, onde podia mexer os cotovelos, usei talheres a sérios - e não aqueles ranhosos de plástico! E, claro, comi em pratos, sendo-me apresentada uma refeição e não comida metida num tetris de plástico. Fui feliz.

Sair no Dubai em Primeira Classe, para depois ir esperar pelo próximo avião, sentada no chão, à porta da Turística... foi desolador.

Ainda hoje, quando faço uma viagem longa, o meu coração enche-se de esperança por um upgrade, mas nada.  Agora entendo, quando dizem, que ninguém sabe o duro que é ter tudo e passar a ter nada!