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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Por que é que o julgamento de Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho interessa a todos nós?

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1. Violência doméstica é crime público.

 

2. Manuel Maria Carrilho já foi Ministro da Cultura. Tentou até ser Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Ou seja, não é apenas uma personalidade pública. É alguém que em determinado momento assumiu um cargo público, representou Portugal e foi pago por isso. Pago pelos contribuintes. Por nós. O assunto deve ser tratado na privacidade do tribunal, mas eu, como contribuinte e cidadã tenho todo o direito de saber se o senhor é ou não culpado. Até porque no futuro, não me interessa votar ou ter como representante alguém acusado por um crime deste género.

 

3. Ao fazer conferências de imprensa e dar entrevistas sobre o caso, insultando e, segundo o tribunal, difamando a ex-mulher, Manuel Maria Carrilho deixou bem claro que este era um assunto parece ser tratado em praça pública. Não houve pudor nem por ele, nem por ela, nem pelos filhos.

 

4. Ambos são figuras públicas e, obviamente, o caso ganha dimensões mediáticas, mesmo com sensacionalismos à parte. O que aconteceu ontem, com a juíza a emitir juízos em plena audiência, a tratar a alegada vítima pelo nome (em contraste com o pomposo "senhor professor"), entre outros "episódios"; já para não falar do tempo que demora e o arrastar do julgamento, permite-nos, aliás, obriga-nos a fazer uma análise crítica sobre os julgamentos de violência doméstica em Portugal. E claramente urge uma reflexão sobre os mesmos.

Jamais me passaria pela cabeça que uma juíza se comportasse desta forma e que comentários como estes fossem usados para com uma (alegada) vítima durante uma audiência. Se isto acontece com uma figura pública e num julgamento mediatizado, o que não passará noutros casos? E quem é que defende e dá voz a estas vítimas, homens ou mulheres?

 

5. Os "juízes de Facebook" valem o que valem. Mas não deixa de ser triste ver os comentário!. Bla bla bla, falamos de um alegado crime, nada foi provado, todos somos inocentes até prova contrária! Mas como se pode destilar tanto veneno, agressividade e crueldade quanto a uma presumível vítima? Só porque é bonita! Ou famosa! Ou rica! Desde quando é que por se ser rica/gira/famosa, um crime passa a ser menos violento ou mais aceitável? Mais: por que razão tem esta ou qualquer outra mulher de ser agredida uma e outra vez mais?

Ainda mais quando o (alegado) agressor, sem qualquer tipo de pudor a agride de todas as formas possíveis verbalmente. Sim, meus amigos, violência psicológica é também crime. Que tipo de pai, vem a público e marca conferencias de imprensa, para dizer que a mulher é isto e aquilo? Ninguém o cala? Ninguém lhe faz perguntas?

 

6. Já agora, que se faça também uma reflexão sobre a cobertura mediática feita ao julgamento. Não existe uma comissão de ética ou os jornalistas esqueceram-se de uma coisa chamada Código Deontológico do Jornalista?

 

Na minha opinião, Manuel Maria Carrilho tem o típico perfil de um agressor. Alguém com uma suposta imagem imaculada, o pai perfeito, o intelectual. Este senhor mesmo confrontado com uma queixa crime não para, tentando convencer-nos a todos de que ele é o bom e ela a má. E ela, a (alegada) vítima ali continua: calada. Acho que no dia que Barbara Guimarães decida falar do assunto, algo que talvez nunca venha a fazer, ela vai conseguir quebrar muitos tabus. Acredito que não seja fáci,l para alguém que vive da imagem (bonita e com a família perfeita) denunciar. Até porque isto não se trata de gostar ou não dela ou de achá-la gira ou não. Neste momento, Barbara Guimarães representa todas as vítimas de violência doméstica. E por todas elas, é importante que se faça justiça. Caso contrário, mais mulheres ficarão caladas e sofrerão no silêncio e na solidão. Em 2014, 35 mulheres morreram em Portugal. São muitas