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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Não, a Madre Teresa de Calcutá não era perfeita

 

Eu que sou uma pessoa do copo "meio-cheio", que adora teologia, assumo, sou uma cínica do pior no que toca a instituições religiosas, sejam elas qual forem. Acredito que o Estado deve ser laico, que os padres pagar impostos, que os monges budistas ir a tribunal (quando comentem crimes) e que os imãs pagarem licenças de construção pelas respectivas mesquitas. Na minha opinião, a religião deveria ser vivida de forma pessoal e na intimidade de cada um e de preferência, sem instituições a dizer "faz isto" e "pensa assado".

Isto, para dizer que já sei que me vão cair em cima e que dizer que eu sou uma mal-educadona do pior, mas desde ontem, desde a canonização da Madre Teresa de Calcutá que ando com comichões.

Admiro a capacidade de entrega a todos aqueles que são esquecidos na Índia, sobretudo com os leprosos. Eu sei que ela foi importante para muitas crianças de rua a quem permitiu uma segunda vida e a serem adoptadas. Não ignoro, nem subestimo a sua generosidade e altruísmo.

No entanto, há muitas coisas nela que me fazem comichão. A senhora era conhecida pelas suas conversões forçadas, ainda mais num país cuja maioria religiosa é o hindu. Esta mulher, que em vida recebeu milhões e milhões de euros em doações, nunca declarou ou pagou impostos - diz-se que o dinheiro ficou todo no Vaticano, não sei. Ela nunca investiu, nem permitiu melhores cuidados médicos aos que a rodeava - sistemas mais modernos, médicos especializados, etc.. Pelo contrário, voluntários e organizações médicas acusavam as várias casas e instituições da Madre Teresa de Calcutá de reutilizar seringas, passando-as só por água; não se preocupar em garantir os cuidados básicos de higiene aos pacientes, com muitos a terem que defecar e urinar em salas comuns; a negar tratamento médico, sobretudo analgésicos ou sedativos, que minimizassem a dor de quem a ela acudia. Nota, esta mesma senhora, antes de morrer teve de ser internada, julgo que por problemas cardíacos e ficou num dos melhores e mais modernos hospitais da Índia.

 

Nos vários textos e orações, está bem patente o fanatismo e idolatração à dor como o caminho para a salvação, o que me chateia.
O facto de ela ter recebido dinheiro de ditadores e de corruptos e ainda ir a tribunal pedir misericórdia por um deles, refiro-me ao ditador da Albânia Enver Hoxh, também não me faz admirá-la muito - e nem me venham com a história que "somos todos filhos de Deus"!
Todavia, uma mulher que vivia rodeada de pobreza, que acolhia mulheres violentas e que vivia num país onde nascer mulher é motivo de tristeza para muitas famílias e em voz alta fazia campanha contra a legalização da prática do aborto ou dos metidos contraceptivos... já é demais para mim!

 

A minha mãe, que é católica dessas que vai à missa (mas com ideias próprias), sempre me disse que os santos eram humanos como nós, que erravam, gente comum que fazia mal as coisas. No entanto, por tentarem fazer o melhor que podiam e sabiam tornavam-se santos. Eu gosto desta ideia.
É por isso que não entendo, esta idolatria e tentativas do Vaticano para ocultar este lado menos bom, o lado lunar,... o lado humano, com falhas e defeitos da Madre Teresa. Isto, revolta-me imensamente; ainda mais quando lhe atribuem milagres e feitos que não concretizou. Fazia mesmo falta?