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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Joana, a estagiária de Psicologia

Joana foi estudante de Psicologia na Universidade de Coimbra.

Depois de dois estágios, deixou de acreditar nas promessas, de que três meses depois passaria a contrato.
Joana não sabia o que fazer mais! No segundo estágio, chegou a trabalhar seis dias à semana. Era sempre a primeira a chegar à clínica e sempre que lhe pediam fazia um turno mais, ela fazia.
Um dia trabalhou doze horas e sem reclamar.
Fez os relatórios todos que a responsável da clínica pediu, inclui todos os detalhes. Como sempre, foi proteccionista e detalhista, e nunca disse um "ai".
Quando directora clínica lhe disse que não poderia contratá-la como planeado, Joana ficou sem chão. A directora foi sincera, disse que lamentava muito, que o trabalho dela era excelente, não tinha nada a apontar, mas que naquele momento, não tinha verbas e não podia contratar mais ninguém.

Quando uma semana depois, a Joana viu o mesmo anúncio que vira três meses antes e da mesma clínica que acabara de a rejeitar, uma raiva enorme apoderou-se dentro dela. Teve vontade de ir para a porta da clínica e avisar os entrevistados que jamais conseguiriam um trabalho efectivo. Dizer que ali só queriam trabalho gratuito e explorar pessoas, que como ela, tinham acabado o curso. Eram uns exploradores. Joana sentia-se enganada, ela que sempre fora tão razoável, sentia-se capaz de ir falar com aquela directora e abaná-la!

Quando estava na clínica, tinha ouvido uns "zum-zuns" que já antes dela, tinham estado duas outras estagiárias, também à experiência. Claro que Joana não quis acreditar.
Aliás, se calhar até era verdade, mas com ela seria diferente. De certeza que as outras duas não eram como ela. Quem mais trabalharia doze horas ou seis dias por semana, sem se queixar?! Mais ninguém! Ninguém era assim tão empenhado.

Mas agora ali estava ela! E todos os dias ela se arrastava até ao computador e procurava anúncios. Enviava cv's voluntariamente. Escrevia cartas de motivação. Procurava  novos sites. Joana já não sabia que palavras mais combinar no Google "Trabalho psicólogo / Emprego psicologia / Vagas para psicólogos".

O mês estava a terminar e ela não tinha coragem de pedir mais dinheiro aos pais para pagar o quarto - afinal, mesmo com despesas pagas, eram 300 euros!
Como era possível que aquilo lhe estivesse a acontecer? Ela que tinha sido uma das melhores alunas da turma!

Quando o curso acabou, um professor chamou-a para trabalhar na universidade, ajudando-o. Foi esse o primeiro estágio, os pais ficaram super orgulhosos. Caramba! Uma filha  trabalhar na Universidade. E tão nova!
Joana também se sentiu orgulhosa, afinal não era qualquer um que recebia aquele tipo de convite! E todos os dias lá ia ela, analisar estatísticas, reescrever entrevistas, pesquisar documentos,... Até os trabalhos mais aborrecidos, Joana fazia com empenho e dedicação. O seu sonho era exercer, mas quem sabe se uma carreira académica não era a melhor opção?

Outros colegas do curso, continuavam a procurar trabalho. Uns pareciam desistentes, uns loosers, que voltavam a casa dos pais ou preparavam cv's para entregar no Pingo Doce, dizendo que tinham só 12º ano. Diziam que preferiam não recrutar recém-licenciados, pois esses, assim que tinham trabalho pisgavam-se. As pessoas desistiam à primeira, não podia ser, pensava Joana, que o mercado de trabalho não era para meninos!

Um mês, três meses e ao quinto mês, a Joana ganhou coragem e foi falar com o professor.
Pensou nos pais e na coragem deles, quando lhe disseram que não podiam continuar a pagar o quarto. Eles tinham razão, coitados, 150 euros de ajudas de custo não davam para pagar o quarto. Pagava o passe, a comida e a custo! Joana compreendia os pais e sabia o quão difícil aquilo foi para eles.
O professor compreendia, mas infelizmente com os cortes orçamentais, o departamento não podia pagar mais. A Joana também compreendia.

No dia em que arrumou os seus papéis, chorou de raiva.
Dias depois e quando tudo parecia perdido, uma entrevista.
Na perspetiva de Joana, a entrevista tinha corrido super bem, apesar dos nervos e, como por magia, ela conseguia um trabalho numa clínica de psicologia. Crise? Qual crise? Os colegas dela não andavam a procurar bem, com certeza!
A diretora tinha sido super simpática e explicou tudo a Joana. Os primeiros meses seriam à experiência, ou seja, não poderiam pagar-lhe, mas depois e se tudo corresse bem, ela ficariam. E seriam só três meses que ali ninguém explorava ninguém!

Era assim o processo. Era assim que se faziam as coisas, explicou a Joana aos pais. Os pais entenderam e apoiaram a filha, mais uma vez! Apoiar significava também pagar. Só mais um esforço. O último sacrifício.

E agora isto!
O mês acabar!
O quarto por pagar!
A caixa de email sem respostas!
Por que é que não respondiam? Nem que seja para dizer não?
Já não havia mais latas de atum e os cereais estavam a meio!

 

Leia a segunda parte AQUI.