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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Irão: arrependimentos

Graças aos senhores fofinhos da Sapo, recentemente tive de ir vasculhar alguns textos antigos para escolher um para o Destaque. Acabei por escolher o meu post sobre a minha viagem ao Irão e aproveitei para relê-lo, porque, amigos, eu sou a rainha dos typos e gralhas.

 

A viagem ao Irão foi muito importante para mim. Deu-me uma perspectiva sobre a vida das mulheres, que até aí eu nunca tinha sentido antes. E digo sentir, porque (de facto) foi a primeira vez que o senti na pele. Anos antes, fiz Erasmus na Turquia. Aí, nas grandes cidades, ver mulheres de lenço e unhas de gel e mini-saia era o prato do dia. Havia muitas na universidade e conheci umas quantos directoras e presidentes. Quando perguntava sobre “e na política onde estão elas?”, a resposta era simples: muitas mulheres optam por ser mães a tempo inteiro. Justo e no seu direito. Na altura, talvez por ser demasiado cachopa, não fazia mais perguntas. Aliás, gostava desta ideia de uma Turquia moderna e aberta. Obviamente que as coisas, e a vida, não são tão simples assim. Eu sei disso agora. Da mesma forma que o sei, que em Portugal também nem tudo é o que parece, nem na Alemanha, onde vivo agora!

 

Mesmo na altura, quando fui ao Irão, quando coloquei o lenço para tapar cabelos e pescoço, dizia para mim mesma que “aqui é assim, que há que respeitar a cultura”. O lenço caiu-me 734 mil vezes, eu andava destapada durante largos minutos e o mundo não acabou. Em oposição, eu fiquei danada de ver as mulheres a terem que usar aquela porra, só porque sim e só porque lhes mandam e só para puderem sair à rua, trabalhar, ir passear os putos e ir às compras. Caso contrário, ninguém lhes daria trabalho ou tinham a Polícia Religiosa, que não é meiga, à perna.

Ainda mais, porque no Irão é comum o uso do chador, uma espécie de tenda presa à cabeça, que cai tipo a capa do Super Homem. Só um gajo, poderia achar que aquilo podia ser roupa de mulher, porque em termos práticos, aquilo vale zero.

 

O Irão foi o primeiro país, onde me senti verdadeira secundária por ser mulher. Vamos ser honestos, todos e todas nós sabemos que há discriminação: mulheres recebem menos, ocupam menos cargos de poder, etc., etc. e tal. Mas quando algo nos acontece na pele (tipo não conseguir o trabalho X ou a promoção Y) por mais que possamos saber que há uma discriminação de género, não temos ninguém a confirmar-nos que sim, sim senhora, que é por termos uma vagina que não conseguimos algo. Isso, no Irão acontecia. Havia gente que só falava com o meu homem e não comigo ou que na hora, se recusava a apertar-me a mão, entre muitas coisas mais.

 

Apesar de já ter estado na Índia, onde os casos de femicídio são o pão nosso de cada dia, além da pobreza extrema do país ou ter vivido na Letónia, onde o abuso de mulheres está no topo da Europa (quando eu lá vivia, dizia-se que havia mais prostitutas em Riga do que em Paris), o Irão marcou-me e permitiu-me uma consciência mais aguda. Porquê? Porque lá está, o vivi na pele.

 

Quando regressei do Irão, “comi” (ainda) mais informação do que nunca sobre o país e foi assim que descobri o grupo de Facebook My Stealthy FreedomO grupo não tem qualquer afiliação política ou religiosa. Limita-se a contar histórias sobre as mulheres do Irão, desencadeando algumas reacções e acções por parte das mesmas, com o apoio de alguns homens também. “Ai, disseram que não podemos anda de bicicleta? ‘Bora lá partilhar fotos, enviadas pelas seguidoras, de mulheres iranianas a andar de bicicleta. Recentemente, mulheres partilhavam fotos sem o lenço, que eram usados pelos homens (irmãos, maridos, …) e a campanha teve inclusive destaque nos media internacionais, com o Aiatolá a falar dessas iniciativas de “subversivas e fruto das influencias sem vergonha do ocidente”!

Recentemente, a campeã do mundo de xadrez recusou-se a participar no campeonato mundial, que este ano se realiza em Teerão. A razão? Porque ela, Norte-americana, não queria cobrir-se e quem não usa lenço, não pode entrar no país.

 

Ai e tal, ela “devia respeitar a cultura!”

… tal como eu fiz quando estive no país!

Se há coisa da qual eu agora me arrependo, foi de não ter sido mais corajosa no Irão. De não ter andado mais destapada, de ter prescindido de alguma da minha roupa de todos os dias, de não ter optado por usar os lenços mais coloridos, que acabaram no fundo da mochila. Fui para o Irão com essa cegueira e ignorância, do “respeitar a cultura”, quando o chador, o lenço, o hijab, os códigos de conduta do vestuário, não foram nunca parte da cultura iraniana - basta ver fotos do Irão nos anos 80 (mais abaixo)! Sei que sem o lenço não poderia ter viajado por lá, mas hoje sinto-me um pouco envergonhada por ter usado algo que não faz parte de mim, só para ter ido lá. Obviamente, que se eu não fosse ao Irão, nada iria mudar! Afinal quem sou eu? Que protagonista tenho? Todavia, sempre que repenso nesta viagem, penso porque razão, eu que desde sempre fui apelida de coisas como “reguila” ou “respondona”, me calei tantas vezes neste país? Evitei confrontos, engoli em seco e encolhi os ombros. Raios, queria poder voltar, só para refazer tudo de novo!

 

 

 

 

 

Mais fotos AQUI.

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