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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Hoje

Cá vai. Hoje fui a um dos campos para os refugiados em Berlim.
Juntamente com duas colegas, levamos roupa, mantas, casacos, chá, etc.
Em dois minutos os meus pés já estavam gelados e em menos de dez, já tínhamos distribuído tudo o levámos.
Ficar de mãos vazias foi horrível! Quando dei por mim, já estava a dar as minhas luvas e o meu cachecol. Ninguém aceitou. Quando por fim convenci um puto (vá, um jovem - devia ter cerca de 16 anos) a ficar com o meu cachecol, ele acabou por voltar e devolver-mo. E pôs-mo ao pescoço.

Mais de 30 pessoas estavam à porta do campo, alinhadas junto ao edifício. Estavam no chão, sentadas em caixas de cartão, à chuva e ao frio (e, caramba, como faz frio em Berlim!). Aquelas pessoas iam passar ali a noite. A razão? Não tinham o número para entrar. E para terem o número precisavam de um outro número que dá acesso ao outro número!
Quando falo em pessoas, falo em homens e mulher. Adultos, jovens, adolescentes e crianças - vi duas crianças!

Do outro lado, era possível ver uma das tendas vazias - uma dessas tendas de festival, grandes de plástico. Os meus pés cheios de frio não paravam de perguntar qual a razão para não deixarem aquelas pessoas entrar e ficar na tenda. Um senhor alemão que tentava encontrar a família de um refugido, também não entendia. Os funcionários falavam-lhe das regras. Ninguém podia entrar. O alemão incrédulo só me dizia "estão cheios de merda na cabeça!" Até pode ser, mas eu tenho a certeza que também eles tinham os pés frios.

Para mim, as pessoas da fila, riam-se e apertavam-me a mão. Quando souberam que eu era Portuguesa, enumeram-me nomes de jogadores de futebol portugueses (acho!), com Cristiano Ronaldo à cabeça.
Para a minha colega, natural da Jordânia, explicavam-lhe de como se sentiam humilhados. Não eram animais para dormir na rua. Que tinham frio. Queixavam-se do futuro incerto. De como estavam arrependidos de ter vindo para a Alemanha. Que talvez na Jordânia as coisas fossem melhor.

Por que razão vos conto isso?
Não quero apontar o dedo à Alemanha, nem criticar funcionários. A razão é simples, a próxima vez que ouvirem alguém falar sobre como os refugiados são beneficiados ou de como eles têm acesso a tudo, trabalho, saúde casa; lembrem-se (e falem-lhes) deste pequeno episódio - que eu sei que não é isolado e que se repete diariamente. Recordem a essas pessoas, que um refugiado não tem escolha.