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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Histórias Inventadas

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Esta sou eu! Esta fotografia foi tirada no dia 3 de Junho, quando o meu irmão Tiago terminou a licenciatura em Direito. Pode não parecer, mas esse foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Naquele dia, naquele momento e durante a fotografia ("mais para a esquerda", "agora levante o queixo", "um sorrisinho, doutor", "oh menina, endireite as costas!"...) eu só conseguia pensar em como o mundo era injusto e que má pessoa eu era.
Anos antes do Tiago entrar na universidade, eu chorei, implorei, gritei e ajoelhei-me, para que o meu pai me deixasse ir à universidade. Ele nunca deixou, disse-me que era hora era de "pensar num bom casamento". O meu pai nunca me deixou ir à escola, eu aprendi em casa a ler e a escrever com a minha mãe. Tive uma professora de Francês e com a minha tia Elisa, aprendi piano. As minhas primas iam à escola, mas eu nunca fui.
Quando o meu irmão mais velho, o José entrou na universidade, com ele, eu descobri um mundo novo. O meu irmão dava-me, às escondidas, livros para ler e muitas vezes, eu ficava com ele, enquanto ele estudava. Por vezes, até o ajudava com os trabalhos. Foi aí que decidi que queria ser médica também.
Do dia em que comuniquei a decisão ao pai, só me consigo lembrar das lágrimas da mãe. O pai ficou furioso - "o que esperavas?" perguntou a mãe! O pai gritava, falava em maridos. Disse que médicas mulheres era inúteis. Mais, disse que eu jamais conseguiria, que não podia entender os livros, os conceitos. Eud disse-lhe que sim, que seria capaz, que ajudava muitas vezes o José. Aí, ele ficou ainda mais furioso e acusou-me de mentir. Nunca o vi tão zangado. Nos anos seguintes, voltei a fazer-lhe o mesmo pedido. Falei-lhe de outras mulheres que estudavam, mas ele só respondia com doses de desprezo. Troquei até Medicina por Letras, pois a Tia Elisa dizia ser mais apropriado, mas em vão. Quanto mais ele dizia "não" á universidade, mais eu era categórica a dizer que "não" a futuros maridos.
Quando o meu irmão Tiago entrou na universidade, o meu pai ficou cheio de orgulho. Chamou toda a família e amigos e brindou com vinho do Porto. Na verdade, nunca ninguém esperou nada do Tiago e não foi surpresa para ninguém, quando demorou oito anos para acabar o curso! Uma vez, ouvi a tia Elisa dizer ao meu pais: "a tua filha já teria acabado o curso". O pai levantou-se e ele e a tia estiveram uma semana sem se falarem. Não me entendam mal, eu gosto do meu irmão. É o mais novo! Mas sempre que olho para ele vejo tudo o que me foi negado. Não sei se algum dia vou superar isto. Serei eu má pessoa?

 

 

*Nota: as histórias são 100% inventadas e pura ficção. Mas depois de ver estas fotografias,  foi como se muitas dessas vidas tivessem histórias por contar.