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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Gentrificação, o palavrão do momento

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O que é a gentrificação?

Entende-se por gentrificação o processo de modificação dos espaços urbanos. A palavra surgiu nos anos 60, quando os gentry, gente fina, ligada à nobreza e com poder económico, começou a ocupar bairros pobres da periferia de Inglaterra, em busca de casas e rendas mais baratas. Com a chegada de novos vizinhos, dá-se a transformação do local, uma transformação de alto nível, enriquecendo/enobrecendo, assim, o local. Este, na teoria, é o lado bom da coisa.

 

O problema da gentrificação é que acaba muitas vezes por contribuir para a perda do seu lado castiço e popular dos bairros e, mais grave, culminando na expulsão dos antigos habitantes, que por razões económicas acabam por ter de abandonar o bairro. Quando falamos de gentrificação não estamos a falar de restaurantes vegans, escolas de ioga ou tascas a serem substituídas por espaços gourmet. Falamos de um processo que implica a substituição de um grupo por um outro, cujo poder económico e aquisitivo é maior.

Nos anos 80, depois do boom dos (horrorosos) bairros sociais, a gentrificação foi vista como algo bom. Artistas, jovens profissionais, casais sem filhos iam viver para bairros da periferia, porque queriam bairros mais baratos. Isso aconteceu em Nova York nos bairros deSoho ouHarlem. Em Berlim, emKreuzberg ou Friedrichshain. No Rio de Janeiro, nos bairros de Botafogo e Flamengo. Ou seja, agentrificação é um processo global, que literalmente toca a todos.

 

No entanto, se há décadas atrás, esse era um fenómeno positivo, que contribuía para uma nova vida nos bairros mais cadenciados e normalmente associados a problemas como a toxicodependecia, actualmente a coisa não funciona assim. Muitos acusam os processos de gentrificação na Europa de descaracterizarem vários bairros no centro das cidades, obrigando os antigos habitantes a moverem-se. É que hoje em dia, com a gentrificação não vem apenas o café com bolos vegan. Vem também a especulação imobiliária e o aumento de rendas.

 

Berlim era conhecida como a meca das rendas baratas na Europa. Hoje em dia, encontrar trabalho em Berlim é bem mais fácil do que encontrar um quarto ou alugar uma casa. A procura é imensa e os preços não param de subir. A velhinha Berlim com rendas de 400 euros não existe mais - com sorte um quarto!

Algumas associações em Berlim, dedicam-se a proteger e a oferecer consultoria legal àqueles que habitam que vêem agora os senhorios a querer dobrar as rendas. Aqueles que não aceitam ou simplesmente não podem pagar, acabam por ter de sair e ir para outros bairros mais periféricos, em busca de rendas mais baixas.

 

Sim, é verdade em que vivemos numa cidade de consumo; quem tem dinheiro, paga e a procura determina o preço. No entanto, não deveria ser assim tão simples e esta é, a meu ver, uma questão que merece mais do que um encolher de ombros. Primeiro, as cidades deviam ser para as pessoas - note-se para pessoas, não me venham com as tretas de Lisboa para os Lisboetas, ok?! Ter uma casa é um bem essencial e é muito perigoso quanto temas como alugar ou compra e venda ficam na mão de mercados e respectivas especulações. Afinal, isso significa também um mercado (e consequentemente um Estado), mais preocupado com proprietários do que com arrendatários e com os seus direitos. Na Alemanha, onde há leis para tudo, há histórias de idosos a quem lhes dizem: “O aluguer agora é 900. Paga? Não paga, então saia!”. 

 

A meu ver, faz falta estudar e saber o que se passa depois com estas pessoas: de que forma é a qualidade de vida delas é depois afectada? No novo bairro encontram os serviços que antes possuíam - escola, centro de saúde, supermercados, etc.? Como podem ser estas famílias ser compensadas? Que apoios recebem?

 

Veja-se Lisboa, se nos anos 90 havia a preocupação da carência de jovens na baixa, hoje em dia, viver lá tornou-se impossível: demasiado caro! Nos bairros de Alfama, Graça ou até mesmo no Campo de Ourique, já não há vizinhos: há turistas. A mercearia foi substituída pela loja de recuerdos. Que futuro pode ter uma cidade assim?

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