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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Colecção A Formiguinha, Majora #2

Os Três Vestidos

(Colecção Formiguinha, Editora Infantil MAJORA - Porto, Portugal)

Os Três Vestidos

Um viúvo tinha uma filha, que era muito bonita. Por ser muito bonita, ela chamava-se Linda Branca. É certo que "filho feio não tem pai", mas louvemos este pai e a sua capacidade de antever o futuro relativamente à formosura da sua filha, já no dia do baptismo.

Linda Branca cresceu sempre bonita, mas a vida não lhe sorria.
Quando a sua fada-madrinha lhe perguntou o que a "consumia", Linda Branca respondeu: "A minha beleza" - que mais poderia ser?! Linda Branca arrastava atrás de si uma verdadeira legião de admiradores e todos se queriam casar com ela, mas para ela era importante conhecê-los primeiro, o que é bastante compreensível.

A fada-madrinha, como todas as fadas-madrinhas logo se dispôs a ajudar. Com a sua varinha de condão, logo fez aparecer três vestidos (todos bonitos): um azul e cinzento, outro azul e prateado e um azul e dourado. Ordenou à afilhada que só os vestisse quando ela mandasse e que fosse ao reino ao lado (a quatro léguas) pedir trabalho no palácio. Mas antes transformou-a na mais "feia das mais feias".

Lá foi a feia Linda Branca e logo começou a trabalhar no palácio - outros tempos. 
Quando as festas chegaram e os bailes foram anunciados, a fada apareceu e ordenou-lhe que pedisse licença para ir ao baile. Perante o pedido de Linda Branca, a Rainha disse que ela teria de pedir autorização ao seu filho, o Rei (um pouco confusas estas relações reais e familiares no mundo da Formiguinha. Mas cada reino sabe de si e estamos no Reino da Formiguinha e não da Disney).
O Rei que na altura se encontrava em dificuldade para calçar as botas respondeu - e reescrevo:
- "Autorizo-te, maçadora, porém desaparece-me depressa da minha vista, senão atiro-te com uma bota!" - sem comentários!

Os Três Vestidos


A Linda Branca lá foi, com o vestido azul e cinzento, como a fada ordenou e txran: ficou bela e formosa como sempre.
Óoooobio que o Rei logo se apaixonou. Até, porque não falamos apenas de uma deslumbrante menina num vestido azul e cinzento. Não. A varinha de condão da fada cuidou de tudo e ela apareceu de coche puxados por seis cavalos brancos.
O Rei logo se enamorou e quando lhe perguntou de onde era, ela disse que era do Reino da Bota e foi-se, para tristeza do Reio (pobrinho!), embora.
No dia seguinte, novo baile e lá foi a nossa feia criada (não se esqueçam que sem os vestidos, ela é "feia entre as mais feias) pedir nova autorização ao Rei, que na altura tinha uma verdasca na mão e respondeu:
-"Vai, maçadora, porém desaparece-me depressa da minha vista, senão atiro-te com a verdasca!"

(Antes de prosseguirmos a história, eu esclarecerei o que é uma verdasca.E parece que além de ser uma localidade perto de Fátima,  uma verdasca é também uma pequena e flexível vara - o que faria o Rei com isto, meus amigos, eu não sei. Prosseguimos com a história?)

Segundo baile, segundo vestido (o azul e prateado). A Linda Branca mais linda do que nunca e o Rei ainda mais enamorado. Ela a ir-se e ele pergunta-lhe de onde era ela. Se comeria este Rei demasiado queijo ou se pensasse que ela era agora outra, isso a Formiguinha não explica. Só que desta vez, a resposta foi:
-"Sou do reino da verdasca". - ela foi-se e o rei ficou ainda mais apaixonado. A palavra "verdasca" causa este efeito nas pessoas desses os primórdios dos tempos.

Ao terceiro dia de baile, Linda Branca fez o seu pedido para ir ao baile, enquanto o Rei limpava a cara a uma toalha. E qual foi a resposta dele?
-"Vai, maçadora, porém desaparece-me depressa da minha vista, senão levas com a toalha!"
Um amor este Rei. Um exemplo de educação e respeito para todos nós. Assim, vale a pena ser monárquico.

Quando nessa noite, ele viu a Linda Branca no seu vestido azul e dourado, ela estava mais deslumbrante do que nunca e à pergunta de onde era ela (sim, ele voltou a perguntar) ela respondeu que era do Reino da Toalha e retirou-se.

O que o Rei era de bruto,  também era de sensível e com as saudades, "caiu gravemente doente". Os médicos recomendavam passeios no jardim do palácio
Num desses passeios, ele viu Linda Branca (versão boa como ao milho) e ao terceiro dia conseguiu por fim "apanhá-la", voltando-lhe a perguntar de que reino era. A resposta foi:
-"Sou do Reino da Bota, da Verdasca e da Toalha" - respondeu. Logo ali, o Rei pediu-a em casamento, mas a Linda Branca logo disse que isso dependeria do seu pai e da madrinha.
A fada-madrinha logo apareceu e quebrou o encantamento, passando a Linda Branca a ser linda como sempre fora, fosse com um casaquinho da Feira de Carcavelos, uma saia da Zara ou um vestido Channel. Dias depois, também o pai autorizou e os dois casaram-se, numa boda que durou três dias, informa a Formiguinha em tom de conclusão.




Querida Forimiguinha, que merda é esta?
Então, o Rei é mal-educado e parvalhão. Ameaça a feia da criada ora com uma bota, depois com uma verdasca e com uma toalha e tem direito a ser feliz para sempre?! Onde está a moral?
E além disso, vê a rapariga três vezes no baile e outras quantas no jardim e só sabe perguntar-lhe de onde é? Por que não lhe pergunta o nome? Em que trabalha? Ou simplesmente discutem sobre o existencialismo de Nietzsche ou sobre o actual egocentrismo digital, da nossa sociedade?
E quanto à Linda Branca? Ela é burrinha, certo? No início tanto drama, porque é bonita e quer conhecer os homens, pois eles só querem casar com ela por causa da sua beleza e não sei quanto mimimi e, no final, fica com um homem que só a tratou bem quando ela era gira?!
Qual vai ser a vida da Linda Branca? Ela vai envelhecer, engordar e ganhar estrias e celulite depois de ter filhos. E depois? Sim e depois, Formiguinha, o que vai ser dela? O Rei é mau, é má rés. A Linda Branca merecia algo melhor: uma carreira, viagens, um homem gentil e inteligente, com senso de humor - no mínimo!
E nem vamos falar dela ter que pedir consentimento ao pai e à fada-madrinha, Formiguinha! Nem falemos disso!

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