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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Amiga estás a pensar em ir ao Irão, mas tens dúvidas? Então:

Esfahan, Irão

1. IR OU NÃO IR?
Ir. Ir sempre, mesmo que seja a viajar sozinha.
Apesar de não ser propriamente conhecido pela variedade de atracções turísticas, o Irão é o berço da cultura persa e um país que vale a pena ser explorado e vivido. Há arquitectura variada, mesquitas incríveis, palácios luxuosos, de montanhas, deserto e praia - e, segundo o senhor taxista, até existem uns castelos portugueses lá no sul. Ah, e alguns dos azulejos mais lindos que vi na vida!

 

2. E AS PESSOAS?
Têm dois olhos, um nariz e uma boca. Todas normais! E são o melhor do Irão!
A verdade é que os iranianos são bastante acolhedores e gentis. Eram constantes os "hello" ou "Welcome to Iran", que nos gritavam na rua e muita gente parava para nos perguntar de onde éramos. Infelizmente, na actualidade, não são muitos os que falem inglês - o inglês não se ensina nas escolas, nem na universidade; mas isso não significa que mesmo sem saber inglês não tentem interagir. Muitas das conversas acabavam por converter-se em longos monólogos em farsi, connosco a sorrir e a acenar com a cabeça!
Os iranianos com quem falámos, eram muito curiosos, queriam saber porque estávamos ali e saber qual a imagem do Irão no exterior. Preparem-se também para muitas conversas sobre o Islão - não eles não querem converter ninguém, mas a construção da identidade iraniana é feita em prol da religião e não da história ou da cultura do país!

 

Palácio Sabadah, Teherão

3. É SEGURO?
Sim. Não sentimos qualquer tipo de ameaça. As pessoas são muito gentis e sinceramente não experimentei (nem  escutei) qualquer história sobre roubos, raptos ou outros episódios de violência. Pareceu-me que existem uns quantos mitos, do tipo "dizem que..."; mas ver não vi nada. 

 

 

4. E O VISTO?
Cada nacionalidade é um caso e o melhor será sempre confirmar, pois as regras podem mudar com a realidade da política internacional. Nós fizemos o nosso através de uma agência em Madrid (foi esta a indicação da própria embaixada iraniana) e pagamos cerca de 50 euros. Isto funciona apenas como um "código de entrada", depois no aeroporto há ainda que pagar taxas. E cuidado, se tem um carimbo de Israel no passaporte, possivelmente não conseguirá entrar no país.

 

Persapolis, Irão

 

5. COUCHSURFING: SIM OU NÃO?
Sim e não.
A primeira experiência foi em Shiraz e foi fantástica. Era um família, com duas filhas, com quem jantávamos todos os dias, conversávamos e jogávamos cartas e mikado. Fomos muito bem tratados e tínhamos total liberdade. No dia em que tivemos de ir, foi bastante triste deixá-los.
Já em Esfahan, a experiência foi menos positiva. O nosso anfitrião tinha todo um plano para nós, querendo acompanhar-nos para todo o lado e não nos dava espaço para fazermos as coisas como gostávamos ou com quem queríamos. Além disso, insistia para que fizéssemos actividades com a família dele, quando só ele falava inglês e... apenas falava com o meu namorado. Admito, foi duro. Foi a primeira vez que senti, que era menos, por ser mulher! Hoje, e com a distância, consigo entender que para aquele homem, aquele tratamento, podia ser até uma forma de demonstrar respeito, por mim.

Além de ser uma boa forma de poupar dinheiro em viagem, é também o meio ideal para conhecer locais e saber mais sobre como vivem, ainda mais numa país com uma cultura tão fechada.
Sinceramente e apesar de uma experiência menos positiva, eu recomendo. O melhor será sempre ler atentamente todas as opiniões sobre o anfitrião e no pedido, deixar bem claro que tipo de viajante são e o que esperam da vossa estadia.

 

Yazd, Irao

 

6. E SER MULHER VIAJANTE NO IRÃO?

Pois! Nem sempre é fácil. Para muitos homens, mesmo aqueles que nos abordavam na rua ou até que nos recebiam em casa, as mulheres eram tratadas como seres secundários. Muitos homens ignoravam as minhas perguntas ou até a minha presença. Houve um senhor que depois de meia hora de conversa amigável e cordial, se recusou a apertar-me a mão, pois isso era "pecado", segundo a região dele!
A verdade é que nem sempre é fácil e aí eu lembrava-me do conselho da minha mãe: "fica caladinha e guarda as tuas opiniões. Não és tu que vais mudar aquilo!". Podemos (nós, as mulheres) irmos preparadas para este tipo de coisas, mas é inevitável de que em algum momento isso nos vai afectar.
Além disso, ver outras mulheres sempre tapadas; ainda mais com aquele chador, que mais parece uma tenda e é zero de prático; o constante negro que se passeia pelas ruas, mexe (muito) com a feminista que há dentro de cada uma. Apesar de cada viagem ser única, acredito que uma mulher irá sempre sentir o Irão na pele, de uma forma diferente de um homem.
Muitas viajantes que conheci no Irão, diziam-me que passaram os primeiros dias (algumas, falavam em semanas) zangadas com o mundo (leia-se homens). Eu passei um dia, inclusive discuti com o meu homem quando ele não levou o prato dele para a cozinha depois de comer - nota, os donos da casa NUNCA o deixaram entrar na cozinha, nem para ir buscar um copo de água durante a nossa estadia!
O bom de ser mulher é que rapidamente conseguimos entrar no mundo feminino! A maior amizade que fizermos no Irão foi com uma mulher e isso só foi possível, porque ela veio falar comigo no autocarro.

 

 


7. ENTÃO TENHO QUE IR TAPADINHA?

Antes de ir, li muito sobre viajar no Irão, onde se falava sobre uma nova geração, mais moderna até na forma de se vestir. OK, isso existe, mas as regras islâmicas continuam a ser lei e são para cumprir - além disso, esses jovens existem, mas representam uma geração com dinheiro, que vive na capital  e está bem longe de ser a maioria.
A maioria das mulheres usa o hyab ou chador - e depois de verem uma mulher com um chador, entende-se, como dizia antes, que:
a) aquilo não é prático;
b) só um homem poderia conceber aquilo como "roupa feminina".
As mulheres não têm como o prender  ou fechar (basicamente é como se o Super-Homem tivesse uma capa, mas presa à cabeça, com um elástico). Agora, imaginem ter que correr com isto, transportar sacos ou ter que levar um bebé nos braços, assim vestidas. E claro, trabalhar. Acredito que muitas mulheres que se "tapam" no Irão, o fazem porque não querem problemas. E, acredito, que uma revolução esteja para breve - aliás, já começou!

Aos viajantes exige-se roupa larga (nada que revele as curvas) e um lenço, de forma a tapar o cabelo e o pescoço. Os homens podem ir como querem, mas é de evitar calções e parece que cores muito fortes, não abunda por ali!

Pude sempre contar com a tolerância dos iranianos, as pessoas são bastante indulgentes com os estrangeiros, especialmente quando o lenço cai - e ele cai muitas vezes. Entre mulheres é também comum uma troca de sorrisos solidária.
Uma vez, o meu lenço caiu e revelava um pouco das minhas costas. Uma iraniana muito educadamente, aproximou-se de mim e deu-me umas (delicadas) pancadinhas na parte destapada, sendo que na última, beijou antes de me tocar a própria mão - é que sobretudo em datas religiosas (Ramadão, Ashoora, ...), estes detalhes ganham mais importância. Quanto à maquilhagem, às estrangeiras recomenda-se descrição. Todavia, vão encontrar bastantes iranianas super-hiper-mega maquilhadas. Algumas parecem saídas de um show de travestismo, sobretudo na capital.

Por norma, as iranianas usam vestidos em cima das calças e sapatilhas (Nike rules) ou então andam todas de negro.


Yazd, Irão

8. E VIAJAR DENTRO DO IRÃO? 
E OS TRANSPORTES PÚBLICOS?
Há voos internos, mas eu não usei.
Viajei de comboio (há que comprar os bilhetes com alguma antecedência) e é super cómodo, com camas e com direito a água, lençóis e mantinha e há. Há carruagens mistas, mas existem outras apenas para mulheres.
Os autocarros entre cidades são muito bons também e bem, bem espaçosos e com direito a snack.
Não só a qualidade das estradas e do serviço é boa, mas também os preços.

Quanto aos transportes públicos dentro das cidades, apenas Teherão tem metro - e recomenda-se.
Como os autocarros andam sempre cheios e o trânsito é caótico (sorte e muita coragem na hora de atravessar a rua), os táxis são bastante populares - e há vários, brancos, amarelos, verdes, velhos, novos e a cair de podre. Um conselho: combinar sempre o preço primeiro. Por norma, aos turistas, os taxistas cobram mais do que aos Iranianos.

E sim, existe nos autocarros e no metro uma separação entre homens e mulheres. Pelo menos, na teoria,
No autocarro, elas devem entrar e sair por trás - na hora de pagar, há que descer pela porta de trás, para depois a voltar a subir pela porta da frente e pagar. Porém, se há lugares vagos na parte masculina, as mulheres sentam-se e vice-versa.
No metro, em Teherão, é como se nem houvesse divisão e todos os utentes se misturam! Quer o autocarro, quer o metro, ambos são bem baratos - cerca de 0,15 cêntimos o bilhete.


Yazd, Irão

9. COME-SE BEM?
Não se come mal, mas a comida está longe de ser espectacular e é sobretudo limitada, em termos de opções. Muito kebab e muito arroz. Mesmo em casa, a ementa não varia muito, sendo também os guisados/ensopados comuns. Boas, boas são as sopas. A minha favorita era uma de limão, bem particular e deliciosa. Mas o melhor, para mim, era o queijo. Branquinho, meio salgado e fácil de untar. Uma delícia da qual já sinto muitas saudades. Há também muitos sumos naturais (laranja, romã, banana, etc.) a óptimos preços e chá. Muito, muito chá.

 

Esfahan, Irão

10. DINHEIRINHO.
A nota de maior valor é a de um milhão de riales - a moeda oficial. Porém, há muitos preços em tomans, a moeda antiga, o que causa ou melhor, nos causava uma grande confusão, seja na hora de pagar ou de negociar. Vezes sem conta pagamos mais do que seria necessário e sempre, mas sempre fomos avisados por um iraniano. São gente séria e bastante honesta! Vamos concordar: muito poucos vencedores em Portugal, receberiam uma nota de 50 euros na maior das tranquilidades e avisariam que o preço real é afinal de 5 euros, ajudando depois com as notas!


E apesar de haver coisas muito baratas, como os museus ou os transportes, aqui fica uma nota: os hotéis no Irão são caros. Como não recebem muitos turistas, não só a informação em inglês pode ser bastante limitada, como também os hostels ou alojamentos baratos no Irão não existem! E note que um hotel no Irão, mesmo caro, pode ser uma coisinha rasca. Há que estar preparado para pagar 20 dólares por um quarto, mesmo sem casa-de-banho ou pequeno-almoço. E isto não acontece apenas na capital. 

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