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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Ainda a Cornucópia ou vamos repensar a cultura em Portugal

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Quando estalou o tema da Cornucópia, estava eu a meter-me num avião. Fiquei triste. É sempre triste ver uma casa fechar, uma casa de artes, de inspiração e de cultura. Não se trata de gostar ou não gostar do que faz a Cornucópia. De gostar ou não do Cintra. A Cornucópia é uma casa com quase 50 anos, um marco no teatro nacional e por onde passaram grandes Artistas - e por artistas não falo apenas de actores, falo de encenadores, cenógrafos, responsáveis pelos figurinos e pela maquilhagem.

 

Quando depois li a entrevista do Luís Miguem Cintra ao Público fiquei com os nervos em franja. A Cornucópia recebe da DGArtes cerca de 300 mil euros para um período de quatro anos. Segunda Cintra, esse valor é insuficiente para o nível a que a Cornucópia está habituada a trabalhar e, por isso, têm de fechar - é justo! E note-se que falamos de uma companhia que chegou a receber 600 mil euros por ano do Estado! Não me compete a mim dizer à equipa da Cornucópia que se adaptem, pois os tempos são outros. Entendo perfeitamente que há padrões aos quais estão habituados e parece-me justo, que assim queiram seguir. Só me deixa triste que a reflexão não se tenha estendido aos restantes núcleos artísticos de Portugal.

 

A cultura em Portugal, aliás fazer cultura em Portugal é extremamente difícil. Extremamente precário. Quando este ano, a meio do semestre a DGArtes cancelou financiamentos, inúmeros grupos ficaram com a vida suspensa e espectáculos cancelados. Isso significa falta de oferta cultural, mas também dinheiro que não entra. Companhias que não desenvolvem trabalho. Público sem espectáculos. Artistas sem salário.

 

Podemos discutir aqui o estado da cultura em Portugal, do horror e até injustiça deste esquema da DGArtes e de subsidio-dependência. Podemos falar também do alto que é o IVA na cultura. Ou discutir sobre a preferência dos portugueses, que gastam mais dinheiro na Zara do que a ir ao teatro. Ou até dos escassos apoios que as câmaras e autoridades locais dão aos “seus” artistas - em Guimarães, a Câmara Municipal paga todos os meses o aluguer da Fábrica, não o cedendo a artistas para espectáculos. Ora se o aluguer está pago, por que não? Recentemente, o vereador da Cultura da Câmara de Coimbra disse que com “umas sandes” os pagamentos ficavam feitos! Mesmo a Gulbenkian, que depois da DGArtes, deve ser o organismo cultural que mais apoios dá em Portugal, muitas vezes paga viagens e nada mais. O resto é pago pelos profissionais do próprio bolso.

 

A Cornucópia vai mesmo fechar e, a meu ver, é bom que não se tenha convertido na excepção à regra. Não acho que a Cornucópia tenha que se saber adaptar ou que tenha de viver com menos. Também lamento e me preocupa MUITO todos os artistas que em Portugal vivem e trabalham de forma tão precária - sim, e eu sei do que falo, Tenha pena que o fim da Cornucópia não tenha sido usado para repensar a cultura em Portugal. Até porque todos os dias são muitos os grupos que terminam e fecham portas, sem que isso seja noticia.