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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

A pior refeição. A melhor refeição

Sou pouco dada a moralismos e princípios tenho poucos. Por exemplo, raramente minto, porque como me esqueço das verdades, nem quero imaginar as mentiras! Não deito lixo no chão e dou lugar aos mais velhos e a grávidas nos transportes públicos.

Quando viajo, não dou dinheiro a crianças, porque acredito que mesmo fazendo diferença às famílias, lugar de criança é na escola. Também não pago, nem participo em actividades com animais. Isto é zoos, montar elefantes ou pagar para fazer festinhas a tigres ou tirar selfies com macacos presos a correntes. E como também não sou moralista, se tiver de comer porquinhos da Ínida numa viagem ao Peru, como (e comi) e o mesmo se me derem gafanhotos na Tailândia.

 

Há anos atrás, estava eu no sul do Camboja e a vida era boa. Uma aldeia minúscula, com umas casinhas junto à praia, onde algumas disponham serviço de alojamento. Quando cheguei, não havia um quarto e fiquei a dormir no sótão, com um colchão no chão e uma ventoinha, que partilhava com duas miúdas mais. A vida era francamente boa: praia a toda a hora, com mergulhos à meia-noite; sestas; boa comida; brincar com o cão (que me comeu uma sapatilha); ajudar com o tpc de inglês e alguma tagarelaice na cozinha.

Um dia, o dono da casa convidou-nos a ir jantar à cidade. Lá fui eu ao fundo da mochila buscar por uma t-shirt limpa ou pelo menos um pouco mais limpa, do que as do topo da mochila.
Chegamos e somos encaminhados para as traseiras do restaurante, onde umas casinhas de cimento estavam anexadas. Cerca de quatro ou cinco. Entramos. A nossa casinha era composta por uma pequena janela, uma mesa e cadeiras.
O menu? Carne de crocodilo, tartaruga, búfalo e ainda um "desculpem, mas não temos cobra!" Oh Jesus! Oh Buda! Oh Ala! Ali, estava eu, prontinha para comer, tudo aquilo que não se podia comer, porque era ilegal sequer de ser caçado. Ali estavam na minha mesa, cozinhados, prontos para se comer, alguns dos animais em vias de extinção mais populares do Camboja.

 

Se comi? Comi.
Se gostei? Gostei.
Se disse alguma coisa? Não. Pelo menos não na hora.

 

Primeiro, porque não quis ser indelicada. Depois, porque foi educada a não reclamar da comida que me dão - "come e cala". E sobretudo, porque tenho uma avó (a melhor do mundo!) que embora enxote os meus beijos e diga constantemente "vai-te embora, chata", sempre me mostrou que comida é amor. Ainda hoje, ela me tira as espinhas do peixe e sabe melhor do que os meus pais, quais as comidas de que eu gosto - a minha pobre mãe só recentemente descobriu que eu adoro esparregado, por exemplo.

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