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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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A fotografia de que todos falam

Esta é a fotografia do momento do Brasil. Vamos pensar um bocadinho sobre ela?

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Contexto: protestos do domingo passado, no Brasil. Protesto contra a corrupção, contra Lula e Dilma, com direito a novo pedido de impeachment da Presidente do Brasil.

 

Numa primeira análise, a fotografia pode ser apenas cómica: ir protestar contra a corrupção e levar a ama dos filhos atrás? Melhor ainda, só ir protestar contra a corrupção, vestindo uma camisola da selecção brasileira, quando o futebol é um dos desportos mais corruptos do mundo!

 

Numa análise mais profunda, esta fotografia diz muito, mas tanto sobre o Brasil da actualidade e também muito sobre o mundo em que ainda vivemos. Ao contrário do que acontece em Portugal, em que o racismo, pobreza e desigualdades sociais é um "não-assunto", isso no Brasil não acontece. O uso massivo das redes sociais (o Brasil é o segundo país mais activo no Facebook), tem sido usado para denunciar, discutir e reflectir muitos destes temas. Mais, permite a vários grupos se organizarem e irem crescendo e um dos melhores exemplos disso, é o crescimento e a importância do movimento feminista no Brasil. Vários colectivos feministas do Brasil, usam as redes sociais, assim como blogues e outros recursos online para debaterem e sobretudo denunciarem as vítimas, histórias e números do machismo, mas também do racismo e da desigualdades do país.

No Brasil, como no resto do mundo, o racismo é uma realidade que anda tantas vezes de mãos dadas com a pobreza, falta de oportunidades, desigualdade e discriminação social. Racismo é crime no Brasil. E ao contrário do que nos vendem as telenovelas ou a Rede Globo, os brancos não são a maioria brasileira. Bem pelo contrário, o "Brasil tem a maior população negra fora da África e a segunda maior do planeta. A Nigéria, com uma população estimada de 85 milhões, é o único país do mundo com uma população negra maior que a brasileira".

Assim sendo, como entender que haja tão poucos negros na TV? Ou na universidade? Ou com acesso a cargos de poder e/ou a ocupar cargos políticos?

 

 

Mas voltemos á fotografia. Nela vemos um casal branco de classe média, que no contexto português seria classe bem alta, que leva o cãozinho para a manifestação e a ama, a "baba" negra, que empurra o carrinho das duas filhas. Sabe-se que é a babá, porque está vestida de branco, a cor das fardas das amas no Brasil, que se usa para as "distinguir" do patronato. Ter uma ama é sinal de status e de poder social. A farda é também uma forma de a diferenciar, de a separar! E note-se que ela vai atrás.

Apenas recentemente, durante a presidência de Lula, as empregadas e trabalhadoras domésticas viram o seu estatuto profissional reconhecido e regulado, com direito a férias pagas, horários de trabalho, segurança social, etc. Na altura, muita gente (leia-se brancos, classe alta) saiu também à rua, para reclamar contra esta alteração, como se ao dar "direitos sociais" a uma classe, lhes fossem "retirados" direitos - onde já se viu: um patrão querer um copo de água às 22h00 e não ter quem o sirva?

No Brasil, tal como noutros países da América Latina, ter empregada interna, dessas que é "quase como se fosse da família" é comum. As casas estão inclusive desenhadas, com o típico "quartinho dos fundos", o "quartinho da empregada" - tal também é possível encontrar em Portugal, em casas mais antigas.

O governo de Lula e Dilma através de medidas como a Bolsa de Família tiraram milhões de pessoas da pobreza. Sair da pobreza é permitir às pessoas dignidade e oportunidade. Oportunidade de estudar, de ter tempo de qualidade com a família, de optar por um trabalho melhor, etc. Mas mesmo assim é triste continuar a ver tanta gente (privilegiada) de vistas curtas, cheias de ignorância e preconceito, incapazes de ver além do seu umbigo. 

 

E sim, ser ama, como qualquer outra profissão é digno. Nada disso está em causa. O casal da fotografia, veio até já mostrar a sua indignação, porque (até) pagam mais à babá que trabalha ao domingo - gosto sempre de pessoas que se vangloriam por fazer o que manda a lei. 

 

"O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados, cerca de 12,5 milhões de africanos foram seqüestrados da África como escravos, 2,5 milhões morreram nas viagens, quase 6 milhões de africanos desembarcaram no Brasil, quase 60% dos africanos foram trazidos para o nosso país, ficou fácil entender como o racismo aqui é mais cruel? Não? Desenhando!"

Um passado como este deixar marcas e, pior, não deixa de existir só porque há a abolição da escravatura. Como se vê na "fotografia do momento" esse tipo de modelos, continuam a reproduzir-se na sociedade de hoje. E, é por isso, que a imagem é tão poderosa.

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