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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

A Alemanha é feminista? Pois, nem por isso!

Mas desde ontem é um bocadinho mais!

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No meu primeiro fim de semana em Berlim, dei de caras com uma manifestação. Casais branquinhos e loirinhos, com os seus rebentos branquinhos e loirinhos, a empenharem cartazes de bebés negros. Algo ali não podia estar bem. Encontrei a contra-manifestação, onde me explicavam que eram grupos a pedir uma lei mais dura para a prática do aborto,matrimonio gay, etc. Foi aí que eu descobri que estas duas práticas não sendo ilegais na Alemanha, estão longe de ser consensuais. E eu só pensava "a sério? Na Alemanha?"

Mais tarde quando fui à farmácia comprar a pílula, fui informada que sem receita médica não havia nada para ninguém! Ok, até aqui dou o beneficio da dúvida. O problema é que depois da consulta e receita na mão, as mulheres ficam com três caixas de pílulas na mão. Três! Isto o sistema a dizer que de três em três meses tens de ir ao médico, só para pedir uma receita.

A Alemanha está longe de ser um paraíso para as mulheres. E não, não é por ter uma mulher presidente que o país é progressista - isso, seria o mesmo que achar que os EUA não são racistas,porque têm um presidente negro! Angela Merkel é a cabeça de um partido conservador - algo que impera aqui na Alemanha.

 

E se é verdade que a Alemanha é dos país europeus com mais apoios à maternidade e paternidade (viva!), também não é menos verdade que existem desigualdades. Por norma, são as mães que param a carreira e ficam em casa com as crianças.  São também elas que acabam por trabalhar em "part-time", pois aqui muitas vezes os horários das escolas são incompatíveis com os dos pais. E aqui não é tão comum o apoio da rede familiar, aka avós, como em Portugal ou Espanha, por exemplo.
Basta também olhar para a política e para as empresas, para constatar, que são poucas as mulheres com cargos de topo! 

E nem me falem em desigualdades salariais!! Mesmo a moderna e progressista Berlim, terra das start ups e empresas de gente jovem e moderna, os homens ganham mais do que as mulheres. E quando as empresas apresentam dados como "quase 50% da nossa empresa é constituída por mulheres", esquecem-se de acrescentar que, primeiro, elas não ocupam cargos de liderança e, segundo, quase todas elas trabalham como Relações Públicas, marketing ou Recursos Humanos!

 

No entanto, tudo isto continuava a parecer insignificante, quando se comparava com a lei alemã para os casos de violação.

Apesar de tão "moderna", "eficiente" e "progressista", a Alemanha continua a ser dos países europeus com um número mais elevado de crimes sexuais e estima-se que apenas uma em dez mulheres apresentem queixa. Porquê? A lei.
Até ontem, a lei alemã era bastante permissiva. Mesmo em casos em que existiam provas, era sempre uma questão de "palavras" da vítima contra o alegado criminoso. E muitos conseguiam escapar-se com o "mas não a ouvi dizer 'não'" ou "sim, ela debateu-se, mas eu pensei que era da excitação, do calor do momento". Segundo a lei alemã, só era considerada violação, quando os actos ocorriam com recurso a violência, implicando que existisse ameaças à vida ou à integridade física. Muitos advogados aproveitavam e esgrimiam argumentos como: "por que é que a alegada vítima não fugiu? Podia ter saído dali!", "Aquela é uma zona segura!", "Podia ter gritado ou ter feito alguma coisa!"
E o pior, é que no final e depois de absolvido, muitos ainda acusavam a alegada vítima de calúnias.


Este ano, as coisas aqueceram na Alemanha. Primeiro, foi em Colónia, com cerca de 90 mulheres a serem agredidas (em todos os sentidos) na véspera de ano novo. Na altura, todos gritaram "fora os refugiados" e ninguém se preocupou com a protecção legal dessas mulheres e a necessidade de lhes fazer justiça - e, mais tarde, quando ficou provado que os agressores não eram refugiados sírios, também ninguém se preocupa em fazer o desmentido, mas isso é outra história!


O caso mais recente foi de uma celebridade alemã, Gina-Lisa Lohfink, que após ter sido alegadamente alcoolizada, drogada e violada, resolveu fazer queixa. Ainda mais porque havia um vídeo. Em tribunal, o juiz considerou que quando ela dizia "não" e "pára" referia-se à filmagem e não ao acto sexual. Como????????? Note-se que estamos a falar de uma mulher que no vídeo, dizem os entendidos, pois eu não o vi, aparece claramente drogada e sem uso das suas faculdades. E como se a humilhação não chegasse, o juiz autorizou a divulgação do vídeo em tribunal, com visualização pública!
E como se a humilhação não chegasse, depois da decisão do juiz, a Gina-Lisa Lohfink ainda foi condenada a pagar 24 mil euros por calúnia ao "bom nome" do agressor!!

 

Por muitas histórias como estas e para que as mulheres (e homens) na Alemanha, vítimas de abusos, tenham justiça e se sintam protegidas, fiquei mesmo feliz com a votação de ontem, pois por fim será legislado o "Nein heißt Nein", "não é não", cujo objectivo será punir qualquer tipo de relação sem consentimento, redefinindo, assim, o que é uma violação na Alemanha.

Ok, a Alemanha até pode ter perdido ontem contra a França, mas ganhou muito mais!