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Maria vai com todos

Estórias. Histórias. Pessoas. Sítios. Viagens. Istambul. Riga. Cinco anos em Madrid. E agora Berlim.

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Racismo na África do Sul

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Gostei tanto da África do Sul, que continuo a pensar em viver lá. Entre outras coisas, há uma que me faz logo mudar de ideias: o racismo.

 

Comecemos pelo início. Ainda antes do Cabo das Tormentas passar a Boa Esperança, havia vida e comércio na África do Sul. Quanto ao Vasco da Gama e aos Portugueses, parece que acharam mais piada a Moçambique e pararam pouco por aquelas bandas - ainda assim naufragaram umas quantas vezes por ali, negociaram muitas pessoas escravizadas e outras coisas mais!

Já os Holandeses fizeram de Cape Town (a Cidade do Cabo em Português) um porto gigante e um mercado ainda maior, onde os barcos paravam e abasteciam antes de seguir caminho. Para manter a coisa a funcionar, trouxeram da Indonésia milhares e milhares de pessoas que, obviamente, escravizaram. Muitas milhares mais nunca chegaram a ver Cape Town, morrendo pelo caminho ou, o extremo acto de rebeldia, suicidando-se!

Mais tarde, os Ingleses dão uma tareia aos Holandeses e mais de 15 mil pessoas são trazidas da Índia - também para ser escravizadas, obviamente.

Esta misturada reflecte-se em Cape Town de várias formas: comida Índia boa, bairros super coloridos, metade da população é muçulmana e há pequenas mesquitas por toda a cidade. 

Depois veio a caça ao ouro e depois, quando a coisa devia melhorar, no final da II Guerra Mundial, só piorou. Veio o Apartheid e a África do Sul passou a ser um país, onde a segregação racial assentava na divisão de quatro grupos. Os brancos, que nem a 10% da população chegavam e que podiam tudo e os outros, que não podiam nada, nem votar! Dentro desses “outros” havia três grupos mais: os misturados, ou seja, pessoas mais ou menos brancas. Os Indianos, que eram todos aqueles com traços asiáticos, não importava se vinham da Índia, da China ou do Japão, era tudo igual! No último grupo, estava a maioria da população: os negros. Durante o Apartheid existia uma comissão que definia o grupo de cada um, medindo cabelos, avaliando tons de pele e escrutinando narizes alheios!

Cada pessoa, aliás os não brancos tinham, por lei, de andar acompanhada dos seus papeis de identificação; havia hora de recolher e zonas das cidades onde não podiam entrar -(ou viver)! Os brancos podiam tudo: votar, ficar com as terras do vizinho não-branco - ainda hoje há gente a tentar recuperar casas e terras!  Aos não-brancos eram-lhes destinados hospitais com menor qualidade, menos médicos, nas escolas aprendiam cursos/trabalhos técnicos - aliás, muitos conseguiram fazer cursos universitários, porque estuvam por correspondência em universidades estrangeiras. E, claro, vivam nos guetos. Notem que estamos a falar de um sistema que durou até 1994! Sim: 1994! E mesmo assim, em 1994 houve um referendo, com cerca de 40% (dos brancos) a dizer que era melhor a coisa continuar como estava!

 

Mandela é um símbolo do Apartheid. Sobretudo, porque depois de passar 27 anos preso, saiu apelando à paz e à reconciliação. A teoria dele era simples: “se ele podia perdoar, os outros também”! Não sei se já viram algum vídeo antigo de Nelson Mandela, mas ele é muito poderoso. Tem carisma, tem voz, tem… é o maior! Além disso, era um homem que gostava da vida: de comer, dançar, de rir e eu valorizo essa gente!

 

Hoje em dia na África do Sul, não há Apartheid, há até um sistema de quotas determinado a tentar restabelecer o equilíbrio laboral. No entanto, a divisão é clara. Acho que só vi um branco a pedir dinheiro e, claramente, tinha algum problema mental. Quem serve à mesa são os negros, assim como quem trabalha no supermercado, quem limpa as ruas e, claro, as casas e cuida dos jardins. Nos cafés e restaurantes hipsters, os brancos são os únicos a consumir. Demoramos mais de duas semanas para entrar num restaurante onde negros e brancos serviam e comiam. Só se vê meninos negros a ir a pé para a escola. Os brancos têm empregadas domésticas negras, a quem por lei pagam 1,10€ à hora. Falamos daquelas empregas à antiga, de farda e que trabalham ao fim-de-semana. Algumas vivem até na casa dos patrões.

Muitos dos brancos que conhecemos na África do Sul mal falavam do tema e muitos, pareceu-nos, vivem na sua redoma e mal conhecem o bairro onde vivem. Recordo-me de em Cape Town de nos recomendarem um super-mercado super longe, porque não havia nada perto. Para depois descobrirmos que a cinco minutos de casa, havia imensas lojas e mercearias... e estamos em 2017! E, sim, também há racismo em Portugal, mas o que dói ver na África no Sul é que não há mistura. Até quando?

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